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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Diferença entre "como exemplo de" e "a exemplo de"

      
            “As vítimas de bullying têm transtornos psicológicos, como exemplo do que  aconteceu com o Wellington Menezes de Oliveira, que num acesso de loucura matou vários adolescentes.” (Redação de aluno)
              É comum a confusão entre “como exemplo de” e “a exemplo de”. A primeira locução serve para introduzir ação, estado ou coisa que constituem exemplos: “Como exemplo de preocupação com o futuro, destaca-se o interesse pela ecologia.” A segunda tem valor conformativo e significa “conforme o exemplo dado por”: “Hoje muitos se mobilizam contra a corrupção, a exemplo dos jovens que protestam na internet”.
          Esta última é a que cabe na frase do aluno: “As vítimas de bullying têm transtornos psicológicos, a exemplo de Wellington Menezes de Oliveira, que num acesso de loucura matou vários adolescentes.”

O verbo "repercutir"

“A parceria entre a família e a escola repercute em uma boa educação para os jovens.”  (Da redação de um aluno)
Há na passagem acima uma inadequação semântica. “Repercutir”, verbo transitivo direto ou intransitivo, significa “refletir”, “causar impressão”. Exemplos: “A sala repercute o som dos cristais”, “A resolução do diretor repercutiu bem entre os alunos”.
           Redundar”, que significa “resultar”, “ter como efeito”, traduz melhor a ideia do aluno. Eis a frase correta: “A parceria entre a família e a escola redunda em uma boa educação para os jovens."

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"Em função de" não tem valor causal

        “A prova teve que ser adiada em função do alto número de candidatos.” (Redação de aluno)  

      A locução prepositiva “em função de” significa de “acordo com”, “em conformidade com”, “na dependência de”, “em resultado de”. Estão corretas frases como: “Ele age em função das normas”, “Sem trabalho, vive hoje em função do pai”, “Conquistou a garota em função de muito penar”.

       “Em função de” não tem valor causal. Quando há ideia de causa, como na frase do aluno, deve-se usar “em razão de” ou locução equivalente (“devido a”, “por causa de” etc.). O alto número de candidatos foi o motivo pelo qual a prova teve que ser adiada.

        O correto, então, é escrever: “A prova teve que ser adiada em razão do alto número de candidatos”.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Preposição inadequada antes de infinitivo

         “Não é difícil de perceber que crianças e adolescentes precisam de cuidados jurídicos a mais em relação aos adultos.” (Redação de aluno)

         Certos infinitivos antecedidos da preposição “de” têm valor passivo e funcionam como complementos oracionais dos adjetivos “fácil”, “difícil”, “agradável”, “possível”, “impossível” etc. Exemplos: fácil de perceber (de ser percebido), difícil de comer (de ser comido), agradável de olhar (de ser olhado).

        Por vezes esses infinitivos se confundem com os que introduzem sujeitos oracionais, como ocorreu no fragmento transcrito acima. O aluno se esqueceu de que sujeito não pode vir regido de preposição. Ele deveria ter escrito: “Não é difícil perceber que crianças e adolescentes precisam de cuidados jurídicos a mais em relação aos adultos.”

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mau gerúndio e quebra de paralelismo

        “Nas últimas décadas o nosso país melhorou o nível de educação. Tendo a taxa de analfabetismo reduzida, aumento de matrículas escolares e crescimento da escolaridade média.” (Redação de aluno)

        Na passagem acima, ocorre má ordenação do primeiro período e quebra da coesão por uso inadequado do gerúndio (em vez de “tendo”, caberia a forma desenvolvida “teve”).

       Há também quebra de paralelismo na oração encabeçada pelo gerúndio, pois “taxa” não se harmoniza morfologicamente com “aumento” e “crescimento”.

       O melhor seria reestruturar a passagem desde o início, apresentando “o nível de educação” como tópico sentencial (sujeito). Por exemplo:

       “Nas últimas décadas, o nível de educação do nosso país melhorou. Houve redução na taxa de analfabetismo, aumento de matrículas escolares e crescimento da escolaridade média."

domingo, 27 de novembro de 2011

O que é "hipocorístico"?

hipocorístico: É qualquer palavra a que se dá um cunho afetivo. Forma-se com o acréscimo de diminutivos (paizinho, amorzinho) ou reduzindo-se a palavra a uma de suas sílabas (José - ; Luana - Lu). Por vezes, duplica-se a sílaba tônica (Zezé) ou acrescenta-se a ela um sufixo (Otávio - Tavinho; Henrique - Riquinho). Podem ocorrer outros tipos de alteração (Francisco - Chico, Margarida - Gaída, Manuel - Manu).

sábado, 26 de novembro de 2011

Alguns problemas comuns em redações de vestibulandos

          Eis alguns problemas comuns na produção textual e suas correções:
         1- “Apesar de a vida tê-lo dado muitos golpes, ele os superou e os venceu”  (ter-lhe: esse pronome exerce a função de objeto indireto e deve ser representado por “lhe”, e não por “o”). 
          2- “É triste a acomodação dos jovens diante dos problemas enfrentados a nível mundial”  (em nível: as locuções “a nível” e “a nível de” não existem). 
          3 - “O excesso de peso e de informações, junto com o desuso do cérebro, levariam ao atrofiamento do organismo” (levaria: a presença de oração intercalada faz com que o verbo concorde apenas com um dos núcleos -- no caso, “excesso”).
          4 - “Hoje, a situação se inverteu, e ao invés de se impor, os jovens apenas reclamam” (em vez de: só se usa “ao invés de” quando os termos significam rigorosamente o contrário: “Ao invés de rir, chora.”).
          5 - “Devemos nos unir em prol de uma sociedade onde sua principal característica seja a inclusão de todos” (cuja: o conectivo não retoma “sociedade” como lugar, e sim como um determinante que modifica “característica”).

domingo, 20 de novembro de 2011

Existe o verbo "ojerizar"?

          Ela ojeriza quem maltrata os animais.” (Redação de um aluno).

         O verbo “ojerizar” é pouco empregado mas existe, sim. Deriva-se de “ojeriza”, que significa “má vontade”, “antipatia”, “aversão”. A raridade do emprego torna desaconselhável o seu uso. É melhor substituí-lo por “ter ojeriza a”, construção bem mais comum.     

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Ciclo" ou "círculo" vicioso?

         “O consumo proporciona às pessoas momentos de prazer, que logo depois são substituídos pela frustração de querer sempre mais. Dessa forma, o ciclo vicioso de compras tem seu contínuo.” (Redação de aluno)

       Na passagem acima há dois problemas. Primeiro, o uso de “ciclo” em vez de “círculo”. Segundo, a ideia expressa no pretenso círculo vicioso que o aluno apresenta. Tal círculo não pode se limitar “às compras”, pois se compõe também do outro fator que o alimenta -- no caso, a frustração que se segue ao prazer de comprar.

       O círculo vicioso existe porque há uma alternância entre a satisfação propiciada pelas compras e a frustração que a elas se segue, a qual leva ao desejo de comprar de novo. Esses estados levam a uma cadei circular, contínua. 

       Melhor redação para o texto seria: “O consumo proporciona às pessoas momentos de prazer seguidos pela frustração de querer sempre mais. Para combater essa frustração elas fazem novas compras, o que gera um círculo vicioso."

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Período mal ordenado

          “O objetivo da quadrilha, de acordo com a Polícia Federal, era a obtenção de lucros através da execução de obras públicas, organizada e estruturada para a prática de variados delitos, como fraudes em licitações, corrupção passiva e ativa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.” (Folhapress)

         O período está mal ordenado, o que lhe prejudica a clareza. O modo como está redigido sugere que a expressão em negrito se refere a “execução”, e não a “quadrilha”. Uma forma possível de resolver o problema é dividi-lo em dois. Por exemplo:

        “O objetivo da quadrilha, de acordo com a Polícia Federal, era a obtenção de lucros através da execução de obras públicas. Ela foi organizada para a prática de variados delitos, como fraudes em licitações, corrupção passiva e ativa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.”

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Parágrafo incoerente devido a problema semântico e coesivo

           “A opinião alheia muitas vezes é irrelevante, pois os conselhos a serem aceitos por nós são mostrados por pessoas que amamos e temos alguma afinidade; sendo assim, a opinião torna-se relevante pela importância dessas pessoas em nossas vidas.”

          O parágrafo acima está confuso. O aluno considera irrelevante a opinião alheia com base no argumento de que só se devem aceitar conselhos das pessoas que amamos e pelas quais temos afinidades.  
         O uso da locução “são mostrados”, contudo, impede que ele expresse coerentemente essa ideia. Parece que as referidas pessoas são as mesmas cujos conselhos ele se dispõe a rejeitar. A mudança do verbo e da expressão conclusiva "sendo assim" tornaria claro o enunciado. Por exemplo:

        “A opinião alheia muitas vezes é irrelevante, pois os conselhos a serem aceitos devem vir das pessoas que amamos e por quem temos afinidade. Só nesse caso, em razão da importância que essas pessoas têm em nossas vidas, a opinião se torna relevante.”

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Refeitura de parágrafo verborrágico e precioso

        
        “O trabalho na escola vem se reduzindo a meros interesses de resultados em vestibulares. Não há como negar a importância de resultados, qualquer que seja o âmbito tratado, mas muito melhor é unido aos resultados observar o corpo gerador dos mesmos. E qual esse corpo gerador senão aquele formado pelo conjunto dos seguintes valores: amor, respeito, justiça, paz, solidariedade? Para ultrapassar a superfície de meros resultados, o conceito escola ter impresso em suas entranhas os já mencionados valores.” (Redação de um aluno)
        O parágrafo acima apresenta preciosismo e excesso de palavras. Expressões como “qualquer que seja o âmbito tratado”, “corpo gerador dos mesmos”, “superfície de meros resultados” e “ter impresso em suas entranhas” obscurecem o sentido e tornam praticamente incompreensível o pensamento do aluno. É preciso cortar algumas ou substituí-las por termos mais simples para dar clareza ao enunciado. Por exemplo:
       “O trabalho na escola vem se resumindo ao interesse por resultados no vestibular. Não há como negar a importância desses resultados, mas o importante é unir a eles a transmissão dos valores que os geram: amor, respeito, justiça, paz, solidariedade. A escola deve se comprometer sobretudo com esses valores”.

domingo, 30 de outubro de 2011

Mau uso da palavra "cerne"

     
       “Funcionários públicos roubam os impostos arrecadados para custear o luxo, e a população, mesmo dotada de cerne, não faz nada a respeito.” (Da redação de um aluno)

       Na passagem acima, o substantivo “cerne” não se ajusta ao contexto da frase. Ele aparece, por exemplo, em “discernir”, que significa “distinguir, diferenciar”. Etimologicamente, discernir é separar o essencial (o cerne) do que é acessório. Esse conceito levou o aluno a estender a ideia de discernimento à palavra “cerne”, e a tomar este termo pelo outro. Eis a correção:
       “Funcionários públicos roubam os impostos arrecadados para custear o luxo, e a população, mesmo dotada de discernimento, não faz nada a respeito.”

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Confusão entre os complementos

            “Um grupo de assaltantes rendeu e levou o carro de uma família”. (Da redação de um aluno).  

         Na frase acima o estudante parece atribuir o mesmo complemento aos dois verbos da oração. Com isso cria uma incoerência, pois dá a entender que o bandido rendeu o carro antes de levá-lo. A atribuição de cada complemento a um verbo torna claro o enunciado:
        “Um grupo de assaltantes rendeu uma família e levou-lhe o carro”.

domingo, 2 de outubro de 2011

O que é o "lheísmo"?

Lheísmo - É o uso do pronome “lhe” como objeto direto. Exemplo: “Eu lhe vejo no cinema amanhã”. O lheísmo só ocorre na segunda pessoa indireta, ou seja, quando o objeto representa alguém com quem se fala mas a flexão verbal corresponde à pessoa de quem se fala (ele). A segunda pessoa indireta equivale a “você”, que os brasileiros preferem ao “tu”.
   O uso do “lhe” no lugar do “o” não deve ser corrigido em discursos informais, pois indica intimidade com o interlocutor e caracteriza um tipo de registro. Já as formas “o, as, os, as” tendem a aparecer, mesmo na segunda pessoa indireta, quando em vez de proximidade quer-se indicar distância. Por exemplo: “Faça o favor de me respeitar. Não o conheço” (em vez de “Não lhe conheço”).

sábado, 1 de outubro de 2011

O gênero de "fondue"

          “Continue saboreando todas as noites de sábado o melhor fondue da cidade!” (Comercial de restaurante)

       “Fondue” é palavra feminina. Constitui o particípio passado do verbo “fondre”, que significa fundir. A forma masculina é “fondu” (fundido); acrescida da desinência “e”, passa ao gênero feminino. O mesmo ocorre com “rompue” (rompida), “entendue” (entendida), “perdue” (perdida) etc.
      O correto, pois, é dizer “a melhor fondue”. Do contrário, funde-se o queijo e... a cuca.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Falha no processo comparativo

        “Morrem a cada ano mais pessoas vítimas do hábito de fumar que a soma das mortes devido a Aids, violência e suicídios.” (Da redação de um aluno)

         Nessa passagem há quebra da coesão. O motivo é o cruzamento indevido dos termos que participam do processo comparativo.
         O aluno inicia o período se propondo a comparar o “número de vítimas” do fumo com o das pessoas que morrem de Aids, violência e suicídios. Antes de fechar a comparação, contudo, introduz a expressão “a soma das mortes” como um novo termo a ser comparado. Com isso, trunca o sentido.  Para dar unidade ao texto, deveria ter escrito:
       “Morrem a cada ano mais pessoas vítimas do hábito de fumar que de Aids, violência e suicídios.”
      Caso o termo comparado fosse “as mortes”, a redação poderia ficar assim:
       “As mortes decorrentes do hábito de fumar são em maior número que as provocadas por Aids, violência e suicídios.”

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Defasagem

      “A prática do bullying é comumente vista entre crianças e adolescentes, pois é nessa fase que sua personalidade está ainda se estabilizando.” (Da redação de um aluno)
         Comento aqui muitas falhas de coesão, mas não há como fugir do assunto. Os deslizes coesivos são de fato os mais comuns. 
       Um exemplo deles ocorre na frase acima, em que a expressão “nessa fase” não pode retomar formalmente nenhum termo da oração anterior. A intenção do aluno era fazê-la substituir “crianças e adolescentes”, mas esses termos designam os indivíduos e não as fases por que eles passam. As fases são “infância” e “adolescência”. Além do mais, a presença de “nessa fase” torna redundante o advérbio “ainda”.
        Eis uma possível correção para a frase:
        “A prática do bullying é comumente vista entre crianças e adolescentes, cuja personalidade está ainda se estabilizando.”

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Confusão entre "antecedente" e "precedente"

“Ao desculpar-se com Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e Giordano Bruno, o papa João Paulo II criou um antecedente histórico.” (Da redação de um aluno)

        “Antecedente” e “precedente” têm em comum a ideia de “vir antes”, e neste sentido se pode dizer que um acontecimento antecedeu ou precedeu outro. O termo “precedente”, contudo, designa também um “ato, fato ou decisão que serve de referência ou pretexto para que se aja da mesma forma” (Houaiss). 
     Tais características definem a atitude de João Paulo II ao pedir desculpas a cientistas e filósofos que outrora foram vítimas da intolerância da Igreja. Eis a frase corrigida:
      “Ao desculpar-se com Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e Giordano Bruno, o papa João Paulo II criou um precedente histórico.” 

domingo, 18 de setembro de 2011

Confusão entre "em detrimento" e "em prol"

“O senhor disse que se deve relegar o meio ambiente a segundo plano, em detrimento do homem.” (Da redação de um aluno)

        Nessa passagem o estudante contesta José Saramago, para quem as tragédias ambientais são graves porém as humanas são piores. Em discurso indireto, ele parafraseia a afirmação do escritor e se dispõe a contestá-la.
       Comete no entanto uma incoerência ao usar “em detrimento de”, que significa em “prejuízo de”. Com isso distorce o ponto de vista do português, que procura em sua declaração combater os excessos dos ambientalistas. Eis a frase corrigida:
         “O senhor disse que se deve relegar o meio ambiente a segundo plano, em prol  do homem.”

domingo, 11 de setembro de 2011

"luz no fim do túmulo"?

     “Para algumas pessoas, a morte é a luz no fim do túmulo.” (Redação de um aluno)
      Se o aluno não pretendeu fazer um jogo de palavras (e não pretendeu mesmo), confundiu os parônimos. A paranomásia, que até pode soar risível, não abranda o efeito da imprecisão semântica. Eis a frase corrigida: 
        “Para algumas pessoas, a morte é a luz no fim do túnel.”

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Uso indevido do conectivo

       “O Vaticano declarou que a teoria da evolução é compatível com a Bíbliamas não pensa em pedir desculpas à indiferença para com Darwin há 150 anos.” (Redação de aluno) 

       O uso indevido dos conectivos pode mudar o sentido da frase ou deixá-la incompreensívelDa forma como o aluno escreveu, o Vaticano pediria desculpas “à indiferençaque manifestou pela teoria de Darwin logo que ela surgiu.  As desculpas, na verdade, se dirigiriam ao próprio Darwin em razão de a Igreja ter sido indiferente com ele.
        A troca da preposição “a” pela preposiçãopor (per)” dá clareza ao enunciado. Confira:
          “O Vaticano declarou que a teoria da evolução é compatível com a Bíblia, mas não pensa em pedir desculpas pela indiferença com Darwin há 150 anos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Adjetivo ou advérbio?

           “O Estado deve tratar todos cidadãos iguais.” (Da redação de um aluno).
           Derrapagens gramaticais são comuns nas redações. Na passagem acima, por exemplo, ocorrem duas.

          A primeira está representada pelo uso do pronome “todos” não seguido de artigo. Sem o artigo, “todos” equivale a “quaisquer” e não a “por inteiro”. Compare: “Todo homem é mortal” (qualquer homem);  Todo o homem é mortal” (o homem inteiro, ou seja, dos cabelos à sola dos pés). 
         O segundo tropeço é a flexão de “igual”, que no contexto da frase não é adjetivo, mas sim advérbio. Modifica verbo, e não substantivo. Um exemplo famoso desse emprego encontra-se no slogan da Skol -- “A cerveja que desce redondo”. “Redondo” não qualifica o produto; refere-se ao modo como ele desce. Da mesma forma, “tratar igual” é “tratar igualmente”.  Eis a frase corrigida:
           “O Estado deve tratar todos os cidadãos igual.”

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mau emprego de "drástico" e quebra do paralelismo

         “As conseqüências do cigarro são drásticas e não prejudicam apenas os fumantes, mas quem convive com eles também.” (Da redação de um aluno)

         Na passagem acima ocorre um problema semântico e outro estrutural.
       O primeiro está representado pelo uso do adjetivo “drásticas”, que significa “enérgicas”, “radicais”. “Medidas drásticas”, por exemplo, são medidas que vão mesmo atuar para resolver um problema. É inadequado usar esse adjetivo com o sentido de “graves” ou “trágicas”. 
        O problema estrutural é a quebra do paralelismo instaurado pelo par correlativo “não apenas... mas também”.  Deve ficar claro que a correlação ocorre entre os objetos diretos “os fumantes” e “quem convive com eles”. Eis a frase corrigida:
       “As consequências do cigarro são graves e prejudicam não apenas os fumantes, mas também quem convive com eles.”

Evite o ondismo

“Esses indivíduos possuem o humor instável, onde as pessoas ao seu redor manipulam-nos facilmente.” (Da redação de um aluno)

O uso inadequado do advérbio relativo “onde”, também conhecido por ondismo, aparece com frequência em redações de vestibulandos.  É o caso da frase acima, em que esse conectivo não se refere a nenhum termo anterior.  
A segunda oração constitui uma consequência (ou conclusão) do que está dito na primeira. Cabia ao aluno expressar isso por meio do elemento coesivo adequado. Por exemplo:
“Esses indivíduos possuem o humor instável, por isso as pessoas ao seu redor manipulam-nos facilmente.”

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Uso inapropriado de "obsoleto"

       “Estamos sempre obsoletos em relação às novas - e quase instantâneas - invenções.” (Da redação de um aluno)

         Na passagem acima ocorre uma impropriedade semântica. O adjetivo “obsoleto” não se aplica a pessoas, mas a bens, máquinas, produtos que se tornaram arcaicos ou fora de moda.
        O aluno não se refere propriamente a uma obsolescência, mas a uma defasagem entre o homem e o ritmo rápido das novas invenções. Eis a frase corrigida:
        “Estamos sempre defasados em relação às novas - e quase instantâneas - invenções.”
        Nas passagens abaixo, retiradas de redações dos alunos, há desvios da linguagem padrão. Leia-as e acompanhe, depois, as correções:

(1) “Mas é claro que se deve preservar e cuidar da natureza.” 
(2) “Lya Luft afirma que a classe média sofre um lamentável preconceito e que são chamados de ‘elite’”.
(3) Na sociedade em que vivemos, nem todos têm as mesmas oportunidades e não seria correto se quem as têm as desperdiçasse.


         O problema de (1) é que o aluno atribuiu o mesmo objeto a verbos de regências diferentes. “Preservar” é transitivo direto; “cuidar”, transitivo indireto, ou seja, exige complemento antecedido de preposição. Eis uma maneira de corrigir a frase:  “Mas é claro que se deve preservar a natureza e cuidar dela.”  

        Em (2), há falha de concordância devido à silepse inadequada. A concordância ideológica não se justifica no contexto da frase, pois não lhe confere nenhum valor expressivo. O melhor é explicitar o termo subentendido: “Lya Luft afirma que a classe média sofre um lamentável preconceito e que seus membros são chamados de ‘elite’”. Ou concordar o verbo com “classe média”: “...e que é chamada de elite.”

        Em (3) há problema de acentuação. O chamado acento diferencial morfológico aparece apenas na terceira pessoa do plural dos verbos ter e vir (têm, vêm). Como o pronome “quem” leva o verbo para o singular, o  correto é “quem as tem”.

Mau uso de "politicamente correto"

        “Enquanto uns vivem em condições de vida precárias, outros vivem em uma civilização politicamente correta, com educação e saúde.” (Da  redação de um aluno)
         Mistura de ideias, conceitos, definições compromete a coerência do texto. Na passagem acima o estudante pretendeu estabelecer um contraste entre a realidade social dos países subdesenvolvidos e a dos desenvolvidos. Não conseguiu fazer isso por empregar, na segunda parte, o termo “politicamente correto”.
           Esse rótulo não designa características sociais, mas de comportamento Refere-se aos que se opõem ao preconceito contra indivíduos ou grupos, pregam a tolerância para com as minorias e lutam para garantir aos deficientes os bens e direitos assegurados às pessoas “normais”.

           Expressões como “evoluída materialmente”, ou “economicamente superior” substituiriam com propriedade o termo usado pelo aluno.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Confusão num período sobre o bullying

“O bullying pode criar dificuldades de comunicação e integração na sociedade, além de ter pesadelo, falta de apetite e insônias.” (Da redação de um aluno)

            Há nessa passagem uma típica falha de coesão. O texto perdeu a unidade por o aluno atribuir o mesmo sujeito às duas orações.
           Vê-se que isso não tem sentido, pois o sujeito da primeira é “o bullying”, responsável por dificultar a inserção social; e o da segunda é a vítima desse tipo de violência, que apresenta perturbações físicas e psicológicas.
            Há duas possibilidades de correção: manter “o bullying” como sujeito e trocar o verbo da segunda oração; ou atribuir a esta um novo sujeito. Por exemplo:
          - “O bullying pode criar dificuldades de comunicação e integração na sociedade, além de provocar pesadelos, falta de apetite e insônia.”          
          - “O bullying pode criar dificuldades de comunicação e integração na sociedade; suas vítimas têm pesadelos, falta de apetite e insônia."

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Fragmentação do período e outros problemas

          “Desde que ocorreu, no século XVIII, o movimento Iluminista, que defendia o uso da razão e se opunha a idéia da Igreja, de que o homem nascia predestinado; a partir daí foram intensificadas as divergências, entre aqueles que defendem os valores racionais contra os que creem no sobrenatural, perdurando até os dias atuais.” (parágrafo introdutório de redação)
         Nesse parágrafo o aluno não apresenta nenhum predicado para o sujeito “o movimento iluminista”; com isso, fragmenta o período. Além do mais, intercala muitos termos no início, o quebra o ritmo e dificulta a leitura. Comete também falhas de pontuação. Vamos melhorar a estrutura:
          “O movimento iluminista surgiu no séc. XVIII. Ele defendia o uso da razão e se opunha à Igreja, segundo a qual o homem nascia predestinado. A partir daí intensificaram-se as divergências entre que os defendiam os valores racionais e os que acreditavam no sobrenatural. Esse conflito perdura até os diais de hoje.

Grafia inadequada

Alguns casos de grafia inadequada decorrem de falsas ligações que os alunos estabelecem entre as palavras. Eles procuram aproximar a escrita do que supõem ser o significado. Eis alguns exemplos:

discursão (em vez de “discussão”) - Geralmente a discussão constitui um discurso longo, interminável... Ou seja: um discursão!
povo hospedeiro (em vez de “hospitaleiro”) - “Hospedar” é “receber como hóspede”, “dar abrigo”. Essa atitude é comum a um povo “hospitaleiro” (que acolhe, oferece hospedagem por caridade); daí a troca.
pertuba (em vez de “perturba”) - Algo a ver com os incômodos provocados pelo som de uma tuba, que são de enervar? 
diante mão (em vez de “de antemão”) - O sentido de “de antemão” é “previamente”, “antecipadamente”. Assim, tal como o advérbio “diante”, expressa anterioridade -- o que talvez explique a confusão. 
caçar (os maus políticos) (em vez de “cassar”) - Um dos sentidos de caçar é “perseguir”, “procurar para prender”. Para o aluno isso faz mais sentido do que, simplesmente, “revogar os direitos políticos”.

Falha de coesão por mau emprego do gerúndio

      “O processo de industrialização iniciou-se em meados do século 18.  A Inglaterra foi a pioneira, chegando no Brasil na década de 50.” (Da redação de um aluno)

      Na passagem acima ocorre falha de coesão no segundo período. O mau emprego do gerúndio (chegando) dá a entender, absurdamente, que a Inglaterra chegou no Brasil (ou ao Brasil) na década de 50.

      A melhor forma de estruturar essa passagem é referir-se a um único tópico, ou seja, tomar como sujeito das orações “o processo de industrialização”. É aconselhável também usar a preposição “a” para introduzir o complemento do verbo; ela é mais adequada ao grau de formalidade exigido numa dissertação.

      Eis a frase corrigida: “O processo de industrialização iniciou-se na Inglaterra, no século 18, e chegou ao Brasil na década de 50."