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terça-feira, 19 de maio de 2026

Erros lógicos na redação

          

          Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar os erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.

        Segundo Othon M. Garcia, erramos quanto à lógica “quando raciocinamos mal com dados corretos ou raciocinamos bem com dados falsos” (Comunicação em prosa moderna, p. 316). Para evitar a segunda possibilidade, o redator deve se certificar de que suas fontes são honestas, idôneas. Caso refira algum disparate (apresentando dados estatísticos falsos, por exemplo), sempre é possível atribuir a elas a responsabilidade. Sua culpa será a de não as ter checado com o devido zelo.

        As falhas lógicas mais encontradas nas redações são as que decorrem do raciocínio deficiente. Entre elas destacam-se as definições inadequadas, a atribuição de falsas causas ou explicações e a petição de princípio. Vejamos um pouco sobre cada uma.  

         Definir é explicar o significado de um termo; é delimitá-lo em função de suas características essenciais. Para fazer isso, é preciso conhecê-lo muito bem. As definições inadequadas se devem justamente ao desconhecimento acerca do objeto definido. Quando isso ocorre, cometem-se imprecisões como esta: “A acumulação de objetos desnecessários, chamada de transtorno obsessivo-compulsivo, ocorre em quase um terço da população brasileira.”

Sabe-se que entre os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo está a acumulação de objetos inúteis, mas essa prática por si não caracteriza a doença. Esse tipo de perturbação psicológica envolve bem mais do que isso. Ao limitá-lo apenas a um de seus sintomas, o aluno o define mal.  

       A apresentação de falsas causas ou explicações ocorre quando o redator faz conexões indevidas nas relações entre causa e efeito. O motivo quase sempre é uma falha na sequência do raciocínio, como se vê neste exemplo de uma redação sobre o culto da imagem na sociedade contemporânea: “No Brasil, recentemente tem vindo à tona uma série de erros médicos em cirurgias plásticas, fruto da insatisfação das pessoas com sua imagem."

         O aluno dá a entender que os erros médicos são provocados pela insatisfação das pessoas com a imagem. Por essa lógica, os pacientes é que seriam responsáveis pelas falhas dos cirurgiões. Isso lembra a história do marido que culpa o sofá pela traição da mulher e manda retirá-lo da sala. A mulher, com ou sem sofá, vai continuar traindo-o; da mesma forma, os erros continuarão a ocorrer estejam ou não as pessoas insatisfeitas com a própria imagem. Traição e erros cirúrgicos não ocorrem pelas razões apontadas.

        O equívoco do aluno se explica pela confusão que às vezes se faz entre causa e explicação. A insatisfação com a imagem indiretamente “explica” o aumento dos erros médicos, pois leva a uma maior procura pelas cirurgias. Com o aumento da demanda, torna-se estatisticamente maior a possibilidade de que tais erros ocorram. Mas dizer isso é uma coisa; outra é transferir a responsabilidade dos erros às vítimas e com isso “livrar a cara” dos cirurgiões (e deixar cada vez mais em risco a dos cirurgiados!).

       Segue outro exemplo de falsa explicação, extraído de uma redação sobre a mentira: “Mentir é inerente ao ser humano, pois alguém, em algum momento da vida, já o fez.”

          O aluno inverte os termos. O que explica alguém já ter mentido é o fato de mentir ser uma característica humana; o geral justifica o particular, e não o contrário. Esse princípio lógico transparece quando se invertem as orações: “Alguém, em algum momento da vida, já mentiu, pois mentir é inerente ao ser humano.”

          A petição de princípio é uma recorrência no raciocínio. Consiste, de acordo com a lógica aristotélica, em apresentar no início de uma demonstração o argumento a ser provado (por exemplo: para provar a sociabilidade do homem, começa-se afirmando que ele é um ser social). Nesse caso, uma afirmação aparece como causa dela mesma.
       Há petição de princípio quando se diz que “Fulano foi reprovado porque não passou de ano”; ou que “Beltrano engordou porque ganhou alguns quilos”. Ela também ocorre nesta passagem: “A educação é muito importante para uma sociedade, não só pelo fato de ela ser de extrema importância, como também por ser um indicador utilizado para medir o desenvolvimento de uma nação”. O aluno atribui a importância da educação ao fato de ela... ser muito importante!

         Outro erro frequente, e que se soma aos três até aqui apresentados, é o non sequiturexpressão latina que significa “não se segue”. Trata-se de um raciocínio falacioso em que a conclusão não decorre das premissas. Ou seja: deduz-se do que se afirmou algo que não tem nada a ver. 

          Um exemplo aparece nesta passagem de uma redação sobre os arquitetos da internet: “Bill Gates afirmou numa entrevista que irá doar uma parcela da sua fortuna para caridade. Ele disse que não acha construtivo seus filhos crescerem tendo bilhões de dólares. O desejo dele deve ser que seus filhos sejam donos do planeta.”

          É clara a desconexão entre o que o aluno apresenta nos primeiros períodos e o que, a título de comentário conclusivo, afirma no terceiro. Se Gates vai destinar uma parcela do seu dinheiro a obras de caridade com o intuito de melhor educar os filhos, como pode desejar que eles sejam “donos do planeta”?  Um gesto que estimule tal presunção nada tem de construtivo.

          O non sequitur também ocorre quando se ligam informações que não têm relação umas com as outras. O elo pode até existir, mas não é adequadamente explicitado. Em razão disso, cria-se uma lacuna na sequência das ideias. É o que se vê neste fragmento de uma redação sobre “evolucionismo versus criacionismo”:   

“A humanidade, com o passar do tempo, criou novas teorias sobre a criação do mundo. É certo que muitas pessoas não têm acesso a essas teorias, mas isso não significa que os intelectuais não possam acreditar no catolicismo, já que essa é uma questão relacionada à fé de cada um.”

           O que vem após a informação de que muitas pessoas não têm acesso às teorias mencionadas constitui uma quebra em relação ao que foi dito. Trata-se, a rigor, de uma ruptura coesiva; ao abandonar o sujeito “muitas pessoas” e passar a falar dos “intelectuais”, o aluno embola o pensamento e deixa de formular o que talvez lhe passasse pela cabeça e ele não fez chegar ao papel. Algo como:

“A humanidade, com o passar do tempo, criou novas teorias sobre a criação do mundo. É certo que muitas pessoas não têm acesso a essas teorias, mas isso não significa que sejam indiferentes a elas, assim como os intelectuais podem acreditar no catolicismo, já que essa é uma questão relacionada à fé de cada um.”

           Como veem, uma boa contraposição (fundada em aparente paradoxo) prejudicada pela má articulação do discurso. 

          Também é comum a má apresentação do círculo vicioso. Como o nome sugere, o círculo vicioso é um tipo de raciocínio circular; nele um termo aparece como causa de outro que também determina o primeiro. Pode ser representado pelo esquema: A causa B e B causa A. Por exemplo: “O Brasil investe pouco em educação (A), por isso não cresce (B); por não crescer (B), não tem como destinar mais verbas à educação (A)”.

        A inadequada formulação desse raciocínio ocorre quando apenas se invertem os termos, sem permutar a relação causa/consequência. O resultado é que não se estabelece a circularidade. Apenas se repete a afirmação inicial trocando a ordem das orações, como neste exemplo: “O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida, e uma vez que não encontra um sentido para a vida toma drogas.” Para indicar corretamente o círculo vicioso, bastaria deslocar o conectivo causal: “O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida e não encontra um sentido para a vida por escolher as drogas.”

        Outra falha é o erro de acidente, que faz o redator considerar um atributo acidental como essencial; ou avaliar o geral em função do particular. Por esse raciocínio, o que ocorre com um indivíduo pertencente a determinado grupo é estendido a todos os componentes do grupo. Disso resultam falsas generalizações, como a de que “todos os políticos são corruptos”, “as mulheres são consumistas” etc. Esse tipo de extrapolação pode ocorrer tanto em prejuízo quanto em proveito de um grupo ou classe.

         Numa redação sobre o papel das Organizações não Governamentais na sociedade, um aluno escreveu: “A análise da ONG ‘Nova Vida’ mostra que essas instituições são importantes, pois defendem causas nobres e fortalecem os movimentos sociais.” Por mais que se tenha respeito por essas entidades, não se pode julgá-las com base na observação de uma só.

     Também depõe contra a lógica a fuga à análise desapaixonada das questões. Por meio desse procedimento, que pode ou não ser deliberado, abandona-se a discussão objetiva e se concede primazia aos afetos, que são “os estorvos máximos do comportamento discursivo racional” (Christian Plantin; A argumentação, Parábola).

     Essa atitude, que comumente se associa a má-fé e preconceito, pode ser exemplificada na seguinte passagem de uma redação sobre o caso Bruno (o ex-goleiro condenado pelo assassínio de Eliza Samudio): “Eliza Samudio não foi apenas vítima. Ela teve o que merecia. Quis dar o golpe do baú e acabou se dando mal. Ela deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro que ele não teve outra saída.”

           A afirmação de que a mulher “quis dar o golpe do baú” e “deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro” não se baseia em fatos – é mera presunção; mesmo que fosse verdadeira, não justificaria o que se fez com ela. Já dizer         que “o goleiro não teve outra saída” é de certo modo justificar o que lhe foi feito e ir de encontro a valores como o direito à vida – o que complicaria seriamente a situação do aluno perante os corretores do Enem. Alertei-o de que, com posicionamentos como esse, ele certamente teria a sua redação zerada. 

Como se vê, esses erros decorrem basicamente de tropeços no raciocínio e repercutem na engrenagem das ideias, tornando a escrita obscura e às vezes ilegível. Eles revelam deficiência na organização do pensamento e comprometem a credibilidade das informações. Com isso, afetam o bom desempenho textual. O leitor tem no mínimo que “se esforçar” para entender o que lê, quando se sabe que tal esforço é uma das medidas do fracasso do autor.

           A falta de lógica no pensar, ou em formular com adequação o pensamento, compromete a aceitabilidade (um dos chamados “fatores de textualidade”) e prejudica a clareza.  Daí ser fundamental que, nas aulas de redação, o professor esteja atento a falhas desse tipo e se mobilize intensamente para saná-las.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

"Independente" ou "Independentemente"?

Noto que há hoje uma tendência a criticar o uso de “independentemente” quando a esse vocábulo se segue a preposição “de”, formando o conjunto locução prepositiva com o valor de "a despeito de" ou “sem levar em conta”: “Independentemente dos obstáculos, ele triunfou.”; “Independentemente do que digam, comprarei aquele carro.”

Essa construção difere daquela em que o adjetivo “independente” vem seguido de complemento nominal. Por exemplo: “Luís hoje vive independente dos pais” (ou seja, não mais depende deles). Isso é muito diferente de dizer que “Luís hoje vive independentemente dos pais” (se é que aos pais interessaria que ele não vivesse!).

Para evitar ambiguidades semânticas como essa, acho válido que se use “independentemente de” em frases do tipo: “Irei ao cinema independentemente do tempo”, “Luís optou pela viagem independentemente das críticas que recebeu” e semelhantes. O uso de “independente” em tais casos é forçado e pouco afeito ao gênio da língua. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Modos verbais

          


         Há três modos em português: o indicativo (designa uma certeza), o subjuntivo (indica dúvida, possibilidade) e o imperativo (refere ordem, pedido, súplica). O mau uso dos modos leva à incoerência, como se vê neste exemplo: “Fica evidente que o problema da adoção não esteja ligado ao número de pretendentes”. Se existe evidência, a ação é certa; não cabe o subjuntivo (esteja), e sim o indicativo (está). Outra coisa seria dizer: “Talvez o problema da adoção esteja ligado ao número de pretendentes.” 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Diferença entre "às vezes" e "as vezes"


           
Não se deve confundir a locução adverbial “às vezes” com a expressão homônima que aparece em “fazer as vezes de”. 

“Às vezes” significa “em algumas ocasiões”, “por vezes”. Aplica-se a ações ou circunstâncias que ocorrem vez por outra. Já “fazer as vezes de” significa “exercer atividade que normalmente compete a outrem”. Quem faz as vezes de repórter num jornal, por exemplo, não desempenha ordinariamente essa função; pode só estar quebrando um galho. 

            O corretor ortográfico do computador grifa com uma linha verde o “as” em “fazer as vezes de”, como se nesse vocábulo houvesse uma crase. O grifo é indevido. O “as” nesse caso é apenas artigo definido (flexionado no plural) e não deve receber acento grave.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Caetano no Enem

 


Uma das questões do Enem 2023 do Enem traz no suporte dois fragmentos de letras de Caetano Veloso. Levado a respondê-la, o compositor disse que todas as alternativas estavam corretas.

Isso curiosamente gerou críticas a ele. Críticas obviamente infundadas. Já houve muitos casos de autores que se saíram mal em provas que avaliavam seus textos. A criação artística tem uma dimensão inconsciente que ultrapassa o domínio intelectual do criador. O artista se guia em grande parte pela intuição e obedece a requisitos estéticos que dão margem a sentidos que muitas vezes lhe escapam.  Caetano afirmou que todas as repostas estavam corretas por ter uma percepção ampla do seu trabalho, que contempla, por exemplo, a liberdade da criação individual (alternativa c).   

Vamos à questão. A maioria dos saites que consultei deu como resposta a letra “b”. Considera que os fragmentos têm comum “a percepção da profusão de informações gerada pela tecnologia”. Será que em comum têm apenas isso? Não vejo, a rigor, referência à tecnologia no Texto I no mesmo nível em que há no Texto II.

A questão apresenta dois trechos do compositor nos quais a oposição cromática associa-se à crítica a dois momentos históricos. Em “Alegria, alegria”, uma das composições inaugurais do Tropicalismo, há uma profusão de cores que se revelam pelo “sol nas bancas de revistas”.  Essa variedade, que enche os olhos do emissor, é o indício de um tempo em que variam as fontes de informação e se coaduna com alguém que segue “sem lenço nem documento”.

Em “Anjos tronchos”, a variedade cromática presente no Texto I dá lugar a um paradoxal “escuro em plena luz”. À luz do sol (“pai de toda cor”, para lembrar outra composição do poeta), contrapõe-se o azul das telas dos monitores, que tende a se intensificar em “azuis mais do que azuis” e reter viciosamente a atenção do usuário.  

Se quisesse, a banca poderia ter abordado a relação intertextual que há entre a composição de Caetano e o “Poema de sete faces”, de Drummond. No mineiro, faz-se referência a um “anjo torto” que manda o eu lírico “ser gauche na vida”. No baiano são os anjos tronchos do Vale do Silício que o intimam a ser “virtuoso no vício” – um paradoxo que expressivamente se reforça por meio da aliteração da consoante /v/.  Tal aliteração, por sinal, é retomada na segunda estrofe com a referência ao algoritmo, que “vende venda a vendedores reais” (atente-se ao homônimo “venda”, que se refere tanto ao ato de vender quanto ao artefato que encobre a visão).

Não há dúvida de que as cores, da maneira como se contrapõem em dois momentos históricos, constituem um “elemento de crítica a hábitos contemporâneos”.  São portadoras de um simbolismo que remete, no Texto I, à preguiça, à saturação, ao descompromisso com os imperativos da realidade (inclusive dos amores, que se mostram inúteis, “vãos”); e, no texto dois, à prisão em que o indivíduo está confinado pelas cegas determinações dos logaritmos.

Há um componente de subjetividade na interpretação que faz com que nem sempre a visão da banca seja a do leitor. Esse, por sinal, é o grande desafio de quem elabora as questões (e também, claro, o de quem se propõe a respondê-las). Para mim, a leitura atenta dos textos remete à consideração da alternativa “a” como válida. Ou, na pior das hipóteses, como também correta.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A redação do Enem 2023


           O tema de redação do Enem 2023 apresenta basicamente dois problemas. Um deles é a formulação confusa, o que se pode confirmar por uma simples análise linguística. Se não, vejamos: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. O acúmulo de palavras, difícil de ler e reter, torna complicado selecionar os tópicos principais. 

A ideia de “enfrentar o invisível”, com que o aluno de imediato se depara, é de dificultosa apreensão pelo que tem de abstrato. Piora a situação a sequência fonética desagradável e cansativa decorrente repetição de “alho, ado, ado”, o que entrava a leitura e obstacula a apreensão da mensagem. 

O complemento do termo “enfrentamento”, por sua vez, desdobra-se num conjunto em que aparece três vezes a preposição “de” (da, do, de), o que alonga desnecessariamente o sintagma e é condenado por qualquer manual de estilo. 

A banca poderia ter redigido com mais clareza e eufonia. Por que não, por exemplo: “A invisibilidade do trabalho de cuidado  realizado pela mulher no Brasil: desafios para o seu enfrentamento”? Ainda não é o ideal, mas já melhorava um pouco. 

A despeito disso, não se pode negar que o tema é atual e pertinente. Num mundo em que tende a aumentar o número de idosos, deve-se dar visibilidade ao trabalho de cuidar que esse contingente da população exige. O cuidador (ou a cuidadora) se insere nas famílias para oferecer um tipo de assistência que seus membros, por falta de preparo técnico, são incapazes de dar. É justo então que deixe de ser “invisível” e tenha o devido reconhecimento.

Há no entanto um outro problema na apresentação do tema, que é a indefinição quanto à ideia de cuidado em razão da abrangência dos textos motivadores. De acordo com o primeiro texto da Coletânea, por exemplo, o cuidado não tem como alvo apenas o segmento dos idosos. Estende-se aos que necessitam de apoio devido à imaturidade (como as crianças) ou a algum tipo de deficiência nas áreas física ou mental. 

Um dado que se pode discutir, mas pelo qual a rigor a banca não é responsável, está na inclusão do trabalho doméstico entre as atividades do cuidador. A mãe ou a dona de casa não é propriamente uma cuidadora – no sentido em que se aplica essa palavra a quem presta assistência a idosos, crianças ou pessoas deficientes. 

A discussão sobre o trabalho da dona de casa ficaria mais adequada numa redação sobre o papel da mulher na sociedade. A limitação às tarefas domésticas tem sido confrontada com a sua atuação no mercado de trabalho – uma das bandeiras do feminismo. 

Penso que o sentido lato que se deu na prova ao termo “cuidado” pode ter confundido alguns alunos. De um lado (para os que conseguiram deslindar a formulação), a ênfase no trabalho realizado pela mulher; de outro, a extensão nos textos motivadores (que concorrem para a depreensão temática) da tarefa de cuidar a indivíduos que também podem se beneficiar do trabalho de homens – pois existem “os cuidadores”. A ilustração do quarto texto motivador, por exemplo, não faz nenhuma menção à figura feminina.   

Possivelmente a maioria interpretará o cuidado no sentido em que essa palavra tem sido mais empregada, destacando o papel do profissional (homem ou sobretudo mulher) que ajuda as famílias a tratar dos que, por doença ou idade, não conseguem sozinhos desempenhar as tarefas minimamente necessárias para sobreviver.

A banca deverá estar aberta à opção do aluno. O importante é que ele consiga mostrar as implicações humanas, sociais e profissionais do trabalho do cuidador (ou cuidadora), discutindo as razões da invisibilidade e apresentando propostas para diminuí-la.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

A lista de Cyro

 

Quando o assunto é clichê, lembro-me do tempo em que fui aluno do escritor Cyro dos Anjos na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A disciplina era Oficina Literária, e o autor de “O amanuense Belmiro”, “Abdias”, “Montanha” e outros bons romances na linha machadiana frequentemente nos alertava para o risco das chapas.

Certa vez nos entregou uma relação com várias delas. Guardei esse papel, que utilizo para prevenir os alunos contra a armadilha do lugar-comum.

Eis alguns clichês que constam na lista de Cyro: implacável destino, esposa exemplar, insidiosa moléstia, virtudes imarcescíveis, radiosa manhã, irresistível impulso, olhar glacial, perigoso meliante, nobre colega, vasto repertório, etc. etc.

É preciso fugir deles como o diabo da cruz (acabei de usar um!).