Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar os erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.
Segundo Othon M. Garcia, erramos quanto à lógica “quando
raciocinamos mal com dados corretos ou raciocinamos bem com dados falsos” (Comunicação
em prosa moderna, p. 316). Para evitar a segunda possibilidade, o redator
deve se certificar de que suas fontes são honestas, idôneas. Caso refira algum
disparate (apresentando dados estatísticos falsos, por exemplo), sempre é
possível atribuir a elas a responsabilidade. Sua culpa será a de não as ter
checado com o devido zelo.
As falhas lógicas mais encontradas nas redações são as que
decorrem do raciocínio deficiente. Entre elas destacam-se as definições
inadequadas, a atribuição de falsas causas ou explicações e
a petição de princípio. Vejamos um pouco sobre cada uma.
Definir é explicar o significado de um termo; é
delimitá-lo em função de suas características essenciais. Para fazer isso, é
preciso conhecê-lo muito bem. As definições inadequadas se devem justamente ao
desconhecimento acerca do objeto definido. Quando isso ocorre, cometem-se
imprecisões como esta: “A acumulação de objetos desnecessários, chamada de
transtorno obsessivo-compulsivo, ocorre em quase um terço da população
brasileira.”
Sabe-se
que entre os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo está a acumulação de
objetos inúteis, mas essa prática por si não caracteriza a doença. Esse tipo de
perturbação psicológica envolve bem mais do que isso. Ao limitá-lo apenas a um
de seus sintomas, o aluno o define mal.
A apresentação de falsas causas ou
explicações ocorre quando o redator faz conexões indevidas nas
relações entre causa e efeito. O motivo quase sempre é uma falha na sequência
do raciocínio, como se vê neste exemplo de uma redação sobre o culto da imagem
na sociedade contemporânea: “No Brasil, recentemente tem vindo à tona uma
série de erros médicos em cirurgias plásticas, fruto da insatisfação das
pessoas com sua imagem."
O aluno dá a entender que os erros médicos são
provocados pela insatisfação das pessoas com a imagem. Por essa lógica, os
pacientes é que seriam responsáveis pelas falhas dos cirurgiões. Isso lembra a
história do marido que culpa o sofá pela traição da mulher e manda retirá-lo da
sala. A mulher, com ou sem sofá, vai continuar traindo-o; da mesma forma, os
erros continuarão a ocorrer estejam ou não as pessoas insatisfeitas com a
própria imagem. Traição e erros cirúrgicos não ocorrem pelas razões apontadas.
O equívoco do aluno se explica pela confusão que às vezes
se faz entre causa e explicação. A insatisfação com a imagem indiretamente
“explica” o aumento dos erros médicos, pois leva a uma maior procura pelas
cirurgias. Com o aumento da demanda, torna-se estatisticamente maior a
possibilidade de que tais erros ocorram. Mas dizer isso é uma coisa; outra é
transferir a responsabilidade dos erros às vítimas e com isso “livrar a cara”
dos cirurgiões (e deixar cada vez mais em risco a dos cirurgiados!).
Segue outro exemplo de falsa explicação, extraído de uma
redação sobre a mentira: “Mentir é inerente ao ser humano, pois alguém, em
algum momento da vida, já o fez.”
O aluno inverte os termos. O que explica alguém já
ter mentido é o fato de mentir ser uma característica humana; o geral justifica
o particular, e não o contrário. Esse princípio lógico transparece quando se
invertem as orações: “Alguém, em algum momento da vida, já mentiu, pois
mentir é inerente ao ser humano.”
A petição de princípio é uma
recorrência no raciocínio. Consiste, de acordo com a lógica aristotélica, em
apresentar no início de uma demonstração o argumento a ser provado (por
exemplo: para provar a sociabilidade do homem, começa-se afirmando que ele é um
ser social). Nesse caso, uma afirmação aparece como causa dela mesma.
Há petição de princípio quando se diz que “Fulano foi
reprovado porque não passou de ano”; ou que “Beltrano engordou porque ganhou
alguns quilos”. Ela também ocorre nesta passagem: “A educação é muito
importante para uma sociedade, não só pelo fato de ela ser de extrema
importância, como também por ser um indicador utilizado para medir o
desenvolvimento de uma nação”. O aluno atribui a importância da educação ao
fato de ela... ser muito importante!
Outro erro frequente, e que se soma aos
três até aqui apresentados, é o non sequitur – expressão
latina que significa “não se segue”. Trata-se de um raciocínio falacioso em que
a conclusão não decorre das premissas. Ou seja: deduz-se do que se afirmou algo
que não tem nada a ver.
Um exemplo aparece nesta passagem de
uma redação sobre os arquitetos da internet: “Bill Gates afirmou numa
entrevista que irá doar uma parcela da sua fortuna para caridade. Ele disse que
não acha construtivo seus filhos crescerem tendo bilhões de dólares. O desejo
dele deve ser que seus filhos sejam donos do planeta.”
É clara a desconexão entre o que o
aluno apresenta nos primeiros períodos e o que, a título de comentário
conclusivo, afirma no terceiro. Se Gates vai destinar uma parcela do seu
dinheiro a obras de caridade com o intuito de melhor educar os filhos, como
pode desejar que eles sejam “donos do planeta”?
Um gesto que estimule tal presunção nada tem de construtivo.
O non sequitur também ocorre quando se ligam informações que
não têm relação umas com as outras. O elo pode até existir, mas não é
adequadamente explicitado. Em razão disso, cria-se uma lacuna na sequência das
ideias. É o que se vê neste fragmento de uma redação sobre “evolucionismo
versus criacionismo”:
“A humanidade, com o passar do tempo, criou novas
teorias sobre a criação do mundo. É certo que muitas pessoas não têm acesso a
essas teorias, mas isso não significa que os intelectuais não possam acreditar
no catolicismo, já que essa é uma questão relacionada à fé de cada um.”
O que vem após a informação de que
muitas pessoas não têm acesso às teorias mencionadas constitui uma quebra em
relação ao que foi dito. Trata-se, a rigor, de uma ruptura coesiva; ao
abandonar o sujeito “muitas pessoas” e passar a falar dos “intelectuais”, o
aluno embola o pensamento e deixa de formular o que talvez lhe passasse pela
cabeça e ele não fez chegar ao papel. Algo como:
“A humanidade, com o passar do tempo, criou novas
teorias sobre a criação do mundo. É certo que muitas pessoas não têm acesso a
essas teorias, mas isso não significa que sejam indiferentes a elas, assim como
os intelectuais podem acreditar no catolicismo, já que essa é uma questão
relacionada à fé de cada um.”
Como veem, uma boa contraposição
(fundada em aparente paradoxo) prejudicada pela má articulação do
discurso.
Também é comum a má apresentação do círculo
vicioso. Como o nome sugere, o círculo vicioso é um tipo de raciocínio
circular; nele um termo aparece como causa de outro que também determina o
primeiro. Pode ser representado pelo esquema: A causa B e B causa A. Por
exemplo: “O Brasil investe pouco em educação (A), por isso não cresce (B); por
não crescer (B), não tem como destinar mais verbas à educação (A)”.
A inadequada formulação desse
raciocínio ocorre quando apenas se invertem os termos, sem permutar a relação
causa/consequência. O resultado é que não se estabelece a circularidade. Apenas
se repete a afirmação inicial trocando a ordem das orações, como neste exemplo:
“O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida, e uma vez que
não encontra um sentido para a vida toma drogas.” Para indicar corretamente o
círculo vicioso, bastaria deslocar o conectivo causal: “O jovem toma drogas porque
não encontra um sentido para a vida e não encontra um sentido para a vida por
escolher as drogas.”
Outra falha é o erro de acidente,
que faz o redator considerar um atributo acidental como essencial; ou avaliar o
geral em função do particular. Por esse raciocínio, o que ocorre com um
indivíduo pertencente a determinado grupo é estendido a todos os componentes do
grupo. Disso resultam falsas generalizações, como a de que “todos os políticos
são corruptos”, “as mulheres são consumistas” etc. Esse tipo de extrapolação
pode ocorrer tanto em prejuízo quanto em proveito de um grupo ou classe.
Numa redação sobre o papel das
Organizações não Governamentais na sociedade, um aluno escreveu: “A análise da
ONG ‘Nova Vida’ mostra que essas instituições são importantes, pois defendem
causas nobres e fortalecem os movimentos sociais.” Por mais que se tenha
respeito por essas entidades, não se pode julgá-las com base na observação de
uma só.
Também
depõe contra a lógica a fuga à análise desapaixonada das questões. Por
meio desse procedimento, que pode ou não ser deliberado, abandona-se a
discussão objetiva e se concede primazia aos afetos, que são “os estorvos
máximos do comportamento discursivo racional” (Christian Plantin; A argumentação, Parábola).
Essa
atitude, que comumente se associa a má-fé e preconceito, pode ser exemplificada
na seguinte passagem de uma redação sobre o caso Bruno (o ex-goleiro condenado
pelo assassínio de Eliza Samudio): “Eliza Samudio não foi apenas vítima. Ela
teve o que merecia. Quis dar o golpe do baú e acabou se dando mal. Ela deve ter
importunado tanto a vida do ex-goleiro que ele não teve outra saída.”
A
afirmação de que a mulher “quis dar o golpe do baú” e “deve ter importunado
tanto a vida do ex-goleiro” não se baseia em fatos – é mera presunção; mesmo
que fosse verdadeira, não justificaria o que se fez com ela. Já dizer que “o goleiro não teve outra saída” é
de certo modo justificar o que lhe foi feito e ir de encontro a valores como o
direito à vida – o que complicaria seriamente a situação do aluno perante os
corretores do Enem. Alertei-o de que, com posicionamentos como esse, ele
certamente teria a sua redação zerada.
Como se vê, esses erros decorrem basicamente de
tropeços no raciocínio e repercutem na engrenagem das ideias, tornando a
escrita obscura e às vezes ilegível. Eles revelam deficiência na organização do
pensamento e comprometem a credibilidade das informações. Com isso, afetam o
bom desempenho textual. O leitor tem no mínimo que “se esforçar” para entender
o que lê, quando se sabe que tal esforço é uma das medidas do fracasso do
autor.





