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domingo, 28 de julho de 2013

Falha semântica e infinitivo composto

        “O Congresso Nacional votou uma série de concessões, como ter tornado a corrupção um crime hediondo, arquivado a Pec 37 e proibido o voto secreto em votações para cassar o mandato de legisladores acusados de irregularidades.”  (Redação de aluno)

        Há dois problemas na passagem acima – um semântico, outro morfológico. O semântico está no uso inadequado de “concessões”. Segundo o Aurélio, concessão significa “consentimento, transigência”, ou ainda “o ato de ceder algo de sua opinião ou direito”. O Congresso não praticou nenhuma dessas ações ao atender o pleito dos manifestantes. Diante disso, o aluno deveria ter optado por uma palavra neutra como “medidas”.

       A falha morfológica é o uso do infinitivo composto (ter tornado) em vez do simples (tornar), o que levou à monótona repetição do particípio nas formas verbais subsequentes. 

         Eis a frase corrigida: “O Congresso Nacional votou uma série de medidas, como tornar a corrupção um crime hediondo, arquivar a Pec 37 e proibir o voto secreto em votações para cassar o mandato de legisladores acusados de irregularidades.”

domingo, 14 de julho de 2013

Evite o uso redundante de adjetivos

        “O problema está no mau uso da imprensa para invadir a privacidade do outro.”; “Portanto, é preciso a pessoa ter cuidado com o que vai publicar em redes sociais e não fazer nada de errado que possa comprometê-la.” (Redações de alunos)

         Nos períodos acima, os alunos dão a entender, respectivamente, que é tolerável o mau uso da imprensa para outra coisa que não seja transgredir a privacidade do outro; e que é admissível a pessoa fazer algo de errado nas redes sociais, desde que isso não a comprometa.

       Os responsáveis por essa interpretação são os adjetivos “mau” e “(de) errado”, que constituem um redudante juízo negativo. Invadir a privacidade alheia constitui por si um mal, e não precisa que se reitere isso; da mesma forma, se a pessoa se compromete com o que publica nas redes sociais, tal fato já constitui um erro. Retirando-se os adjetivos, desfaz-se a ambiguidade.

     Eis as frases corrigidas: “O problema está no uso da imprensa para invadir a privacidade do outro.”; “Portanto, é preciso a pessoa ter cuidado com o que vai publicar em redes sociais e não fazer nada que possa comprometê-la.”

domingo, 7 de julho de 2013

Em favor da clareza

        “A adolescência é o período de maior fragilidade do indivíduo, pois este se encontra favorável a influências alheias.” (Redação de aluno)

        O uso da palavra adequada é fundamental para o redator se expressar com clareza.   Sem rigor semântico, ele pode até dizer o contrário do que pretendia.

          Na frase acima o aluno não chega a esse extremo, mas o uso de “favorável” dá a entender que o adolescente não se opõe a ser influenciado pelos outros. O que é uma disposição própria da idade soa como um propósito consciente e deliberado.

      Eis a frase corrigida: “A adolescência é o período de maior fragilidade do indivíduo, pois este se encontra suscetível a influências alheias.”

domingo, 30 de junho de 2013

Tautologia com vocábulos gramaticais


        “A traição ocorre exclusivamente em virtude da nossa vontade, e não dos aspectos da natureza humana.” (Redação de aluno)
        A tautologia é o excesso de palavras para indicar uma mesma ideia. Pode ocorrer tanto no léxico, quanto nos vocábulos gramaticais. Exemplos do primeiro tipo são expressões como “consenso geral”, “fatos reais”, “iminente possibilidade”, em que os adjetivos reiteram desnecessariamente o sentido do substantivo. O desconhecimento da etimologia por parte de quem os usa faz com que acrescentem o óbvio.
 
       Exemplo de tautologia gramatical ocorre na passagem acima; o aluno usa sem necessidade o vocábulo “exclusivamente”, que tem o mesmo sentido do advérbio “só”.
        Eis a frase corrigida: “A traição só ocorre em virtude da nossa vontade, e não dos aspectos da natureza humana.”

domingo, 23 de junho de 2013

Abuso da locução "em cima de"

       “É preciso refletir em cima das razões que levam a nossa educação a ser tão ruim.” (Redação de aluno)           

         A preposição “sobre” indica posição superior. Equivale a “em cima de” em frases do tipo “Deixou o livro sobre a mesa (em cima da mesa)”.

       Ocorre que essa preposição também significa “a respeito de”. Nesse caso, introduz um adjunto adverbial de assunto (“Falou sobre a reforma política”) ou o objeto indireto de verbos como “pensar”, “refletir” etc. Em situações como essas não tem nenhum sentido substituí-la por “em cima de”, como fez o aluno.

        Por sinal, há hoje uma tendência a banalizar “em cima de”, que chega a ser indevidamente usada no lugar de “em”: “A turma deu uma vaia em cima do diretor (no diretor)”.  

     Eis a frase corrigida: “É preciso refletir sobre as razões que levam a nossa educação a ser tão ruim.”

domingo, 16 de junho de 2013

Uma armadilha com o verbo "evitar"

         “Deve-se evitar gastar muito com pessoal nem permitir que gente despreparada entre no serviço público.” (Redação de aluno)

        Nessa passagem, o uso da conjunção “nem” constitui uma falha na coesão sequencial. Esse conectivo, que significa “e não”, deveria estar coordenado a uma  afirmação negativa – o que não ocorre.

       O motivo do engano do aluno é semântico; liga-se ao uso do verbo “evitar”, que tem em si uma ideia negativa. Mas o que rege as articulações coesivas não é a ideia, e sim a forma. 
      Na correção, é recomendável desfazer a junção dos infinitivos (evitar gastar), que soa mal. Por exemplo: “Deve-se evitar gasto excessivo com pessoal e permissão para que gente despreparada entre no serviço público.”

domingo, 2 de junho de 2013

Incoerência e falha de pontuação

           “A ideia altruísta, de preservar o presente em detrimento daqueles que ainda virão, é constantemente relacionada à preservação do meio ambiente.” (Redação de aluno)
 
           Na passagem acima, há um problema de incoerência e outro de pontuação. A incoerência está no uso da locução “em detrimento”, que significa “em prejuízo”. Opõe-se a “em prol”, que quer dizer “em proveito”.  O aluno se refere a uma ideia que visa a beneficiar os outros. Sendo assim, a preservação do presente não pode se dar em prejuízo desses outros (aqueles que virão). Preserva-se o presente, o agora, em benefício das gerações futuras.
 
          O problema de pontuação está no uso das vírgulas. Com elas, o aluno apresenta a sua ideia como uma explicação, e não uma especificação. Ora, nem toda “ideia altruísta” consiste em preservar o presente.
  
         Eis a frase corrigida: “A ideia altruísta de preservar o presente em prol daqueles que ainda virão é constantemente relacionada à preservação do meio ambiente.”