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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Ainda sobre o verbo "corroborar"

      “É oportuno observar as estruturas que corroboram com a manutenção do justiçamento, tais como as elevadas taxas de violência nos centros urbanos e a impunidade." (Redação de aluno)
            
          Na passagem acima, há um duplo problema com o uso do verbo “corroborar”. O primeiro é semântico: "corroborar" significa “confirmar”, sentido esse que não cabe no contexto. O segundo é gramatical e diz respeito à regência; “corroborar” é transitivo direto, ou seja, não apresenta complemento regido de preposição.

        Outro problema é o emprego inadequado de “estruturas”; o aluno queria se referir “a razões” (ou “fatores”).


        Eis a frase corrigida: “É oportuno observar as razões que concorrem para a manutenção do justiçamento, tais como as elevadas taxas de violência nos centros urbanos e a impunidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A diferença entre "obcecado" e "obsessivo"

“Há pessoas obsessivas por trabalho que acabam comprometendo seu bem-estar em troca do sucesso profissional.” (Redação de aluno)

O adjetivo “obsessivo” deriva-se de “obsessão”, que é o apego exagerado a uma ideia ou sentimento. Designa os que têm compulsão para fazer determinada coisa. Os chamados workaholics se enquadram nessa categoria e terminam obcecados pelos ofícios que desempenham (“obcecar” significa tornar cego, privar do discernimento).
Embora “obsessivo” e “obcecado” se relacionem quanto ao sentido, somente o segundo admite complemento. Diz-se que alguém é obsessivo sem apontar o objeto da obsessão; não se é obsessivo por alguma coisa. Com “obcecado” é diferente: pode-se dizer que Fulano é obcecado por esportes, jogos eletrônicos, filmes de ficção científica etc.
Na refeitura, é aconselhável substituir a locução “em troca de” por outra que traduza melhor a presumível vantagem obtida com o sacrifício do bem-estar (“em prol de”, por exemplo).

Eis a frase corrigida: “Há pessoas obcecadas por trabalho que acabam comprometendo seu bem-estar em prol do sucesso profissional.”

domingo, 25 de setembro de 2016

Confusão no emprego de "ambíguo"

    “O adolescente é um ser ambíguo. Numa hora está feliz, noutra está depressivo e solitário.” (Redação de aluno)

     O adjetivo “ambíguo” refere-se a alguém ou algo que admite mais de uma interpretação. Aplica-se por exemplo ao texto literário, que geralmente tem um sentido denotativo (no dicionário) e outro conotativo (no contexto). Ou ao comportamento contraditório de algumas pessoas. Isso é diferente do que ocorre com o adolescente, que tende a manifestar instabilidade, ou seja, oscilação de humor.

     Eis a frase corrigida: “O adolescente é um ser instável. Numa hora está feliz, noutra está depressivo e solitário.”

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O par correlativo "desde... até"

“A legislação para os processos de adoção no Brasil é lenta. Podendo durar anos até a sua conclusão e a aprovação de todo o processo de adoção.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, ocorre falha na chamada coesão sequencial. Um dos efeitos desse processo coesivo é assegurar a correta articulação entre os termos introduzidos por conectivos.  Ela é particularmente importante quando os conectivos constituem pares que se correlacionam (não só... como também, tão tanto... quanto, desde... até etc.).
No fragmento do aluno houve falha na articulação do par “desde... até”, do qual se cortou o primeiro membro (desde). O resultado foi uma acumulação redundante de termos a partir da preposição “até”; mistura-se a ideia de “conclusão” com a de “aprovação de todo o processo” (o que, obviamente, o conclui).
Na refeitura, aproveitamos para corrigir outros problemas, como o uso impróprio do termo “legislação”, o emprego inadequado da preposição “para” e a flexão no gerúndio do verbo “poder”, que fragmenta o período.

Eis a frase corrigida: “A legislação sobre os processos de adoção no Brasil é ineficaz. Devido a isso, eles podem durar anos desde a abertura até a conclusão.”
Outra forma de corrigir é substituir “legislação” por “tramitação”, que se aplica melhor ao contexto: “A tramitação dos processos de adoção no Brasil é lenta. Pode durar anos desde a abertura até a conclusão.”

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ambiguidade ou sadismo?

“Na cidade francesa de Nice, um homem matou cerca de 80 pessoas atropeladas, deixando a região em estado de pânico.” (Redação de aluno)

Na passagem acima ocorre ambiguidade – ou sadismo. Iniciemos com a segunda possibilidade: é ou não é próprio de um sádico matar 80 pessoas que já foram vítimas de atropelamento?
Evidentemente não foi isso que o aluno quis dizer, o que nos leva à segunda possibilidade. Seu enunciado é ambíguo devido à má ordenação das palavras. O ordenamento errôneo levou-o a apresentar “atropeladas” como um adjunto adnominal e produzir a interpretação descabida (na refeitura, deve-se reduzir “em estado de pânico” a, simplesmente, “em pânico”).

Há duas formas de corrigir a frase: 
1 - “Na cidade francesa de Nice, um homem matou por atropelamento cerca de 80 pessoas, deixando a região em pânico.”
2 - “Na cidade francesa de Nice, um homem atropelou e matou cerca de 80 pessoas, deixando a região em pânico.” (Redação de aluno)


sábado, 27 de agosto de 2016

Confusão no uso de "a priori" e "a posteriori"

“A priori, quando surgiu no século I d. C., essas associações que utilizam o terror e a violência como forma de manifestação eram poucas, mal articuladas e só realizavam ações que atingissem os alvos. A posteriori, com a dispersão pelo mundo desse tipo de manifestação e principalmente com o surgimento e o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas e de comunicação, esses grupos ganharam maior alcance, melhor organização e mais apoio tanto financeiro quanto no contingente individual.” (Redação de aluno)

Entre os problemas do parágrafo acima, está o uso inadequado das expressões “a priori” e “a posteriori”. Elas não devem ser usadas para indicar os dois momentos de uma sequência temporal. “A priori” não se confunde com “de início”. Designa algo que é percebido de modo intuitivo, independentemente da experiência, ou que é dado como um pressuposto. Por exemplo: “Para Rousseau, o ser humano é a priori bom.” “A posteriori”, por vez, traduz um saber que é fundado na experiência ou na observação.
 Há também problemas de pontuação, pois a oração que se segue a “associações” é explicativa e não restritiva (o termo já foi definido pelo pronome demonstrativo “essas”); e de paralelismo, pois os consequentes do par “tanto... quanto” não estão morfossintaticamente harmonizados.

Eis a frase corrigida: “De início, quando surgiu no século I d. C., essas associações, que utilizam o terror e a violência como forma de manifestação, eram poucas, mal articuladas, e só realizavam ações que atingissem os alvos. Depois, com a dispersão pelo mundo desse tipo de manifestação e principalmente com o surgimento e o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas e de comunicação, esses grupos ganharam maior alcance, melhor organização e mais apoio tanto financeiro quanto pessoal.” 

sábado, 20 de agosto de 2016

Mantenha a unidade do período

“Caso a justiça brasileira precise investigar conversas de possíveis terroristas planejando algum atentado, esse crime pode ser bem sucedido devido a privacidade exagerada garantida aos usuários do “Whatsapp”.  

Muitas falhas de coesão resultam da quebra na estruturação do período. É o que ocorre na frase acima, em que o sujeito da oração condicional (a justiça brasileira) não é retomado na oração seguinte. Em vez de retomá-lo, ou de apresentar alguma informação que se relacione com ele, o aluno passa a falar de um novo sujeito (esse crime).

Uma forma de resolver o problema é manter “justiça brasileira” como sujeito das duas orações, fazendo as adaptações necessárias. Aproveite-se para corrigir duas outras falhas: a endorreia representada pelo gerúndio “planejando” com o valor de oração adjetiva e a ausência da indicação de crase antes de “privacidade”. 
  
Eis a frase corrigida: “Caso a justiça brasileira precise investigar conversas de possíveis terroristas que planejem algum atentado, poderá ser malsucedida devido à privacidade exagerada garantida aos usuários do “Whatsapp”.