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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Refazendo período

“A respeito dos refugiados, a ONU deve pensar numa maneira melhor de absorver a enorme demanda e que mantê-los em seus países e negar abrigo, é praticamente negar suas vidas.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, há quebra de paralelismo. O aluno coordena caoticamente os dois objetos diretos do verbo “pensar”. O primeiro, por meio de um substantivo: “numa melhor maneira”; o segundo, por meio de uma oração (à qual, a propósito, falta a preposição “em”): “e (em) que mantê-los em seus países e negar abrigo é praticamente negar suas vidas”. Além disso, separa por vírgula os sujeitos oracionais da segunda oração objetiva direta.
A melhor maneira de resolver o problema é manter o primeiro objeto direto e substituir “em que” pelo conectivo “pois”, transformando em explicação o que é um forçado e artificial complemento verbal. E por que não ser direto e apresentar logo “a ONU” como sujeito?   

Eis a frase corrigida: “A ONU deve pensar numa maneira melhor de absorver a enorme demanda dos refugiados, pois mantê-los em seus países e negar abrigo é praticamente negar suas vidas.”                                    

sábado, 29 de outubro de 2016

Evite o anacoluto (e prefira a voz ativa)

“Alguns países vizinhos, como: Venezuela. Argentina, Colômbia e Chile, é permitido o uso de drogas.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, o aluno quer dizer que em determinados países se permite o uso de drogas, mas omitiu a preposição “em”. Com isso, deixou a locução “alguns países vizinhos” solta no período; a essa quebra na estruturação sintática, dá-se o nome de anacoluto.
Há duas possibilidades de correção: desfazer o anacoluto, inserindo “em” no início da frase, ou transformar em sujeito “alguns países vizinhos” e passar a oração para a voz ativa. Essa última alternativa é a melhor.

Eis a frase corrigida: “Alguns países vizinhos, como Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile, permitem o uso de drogas.”

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Sobre o sentido de "acalorados"

“A discussão acerca do casamento entre homossexuais, no Brasil, produz debates acalorados, porém controversos.” Redação de aluno

Na passagem acima há incoerência. O aluno estabelece uma falsa oposição entre os debates serem “acalorados” e “controversos”, quando uma coisa supõe a outra.
Usado metaforicamente, o adjetivo “acalorado” significa “apaixonado”, “animado”. Quando se aplica a um debate, que envolve discussão sobre pontos de vista contrários, esse adjetivo obviamente realça o que há nele de polêmico, controverso.

Eis a frase corrigida: “A discussão acerca do casamento entre homossexuais, no Brasil, produz debates acalorados.”

domingo, 16 de outubro de 2016

A diferença entre "sofisma" e "subterfúgio"

“Quando lhe disseram que devia reformular o trabalho, ele veio com o sofisma de que já se esforçara demais e merecia ser poupado.” (Redação de aluno)

       Na passagem acima não cabe o uso da palavra “sofisma”. Sofisma, ou paralogismo, é “qualquer argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro” (Houaiss). Significa também “logro”, “embuste”.
Por exemplo: a afirmação de que o indivíduo “fuma por vontade própria” é um sofisma para contestar as campanhas antifumo do Ministério da Saúde. Nela se usa o pretexto da liberdade individual para justificar um prejuízo infligido a si e a outros.
O argumento de que “se esforçara demais” é antes um subterfúgio, ou seja, “uma manobra ou pretexto para evitar dificuldades”. Ele foi apresentado como um estratagema para se fugir a um dever.


 Eis a frase corrigida: “Quando lhe disseram que devia reformular o trabalho, ele veio com o subterfúgio de que já se esforçara demais e merecia ser poupado.”

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Parágrafo com problemas de coerência e coesão

“A legalização das drogas sempre foi um tema polêmico e atual. Protestos a favor e contra essa legalização ocorrem com frequência. Uma vez que muitos acreditam que legalizar diminuiria o tráfico, outros acreditam ser inaceitável devido aos transtornos que a mesma proporciona. Mas afinal qual seria a solução para essa questão tão controversa?” (Redação de aluno)

No parágrafo acima, há problemas de coerência e coesão. Não se pode dizer de algo que “foi atual”; a atualidade supõe o presente, e não o perfeito do indicativo. Pode-se no entanto falar de uma atualidade que se desdobra no tempo, uma espécie de permanência, antepondo ao adjetivo  o advérbio “sempre”.
O problema coesivo é o emprego da locução conjuntiva “uma vez que”. O aluno estabelece uma simultaneidade na qual se opõem duas visões sobre a legalização das drogas. Deveria ter usado o conectivo “enquanto”, “ao mesmo tempo que” ou semelhante.
Na refeitura, deve-se evitar a repetição do verbo acreditar e corrigir o mau emprego de “a mesma”.

Eis o parágrafo corrigido: “A legalização das drogas é um tema polêmico e sempre atual. Protestos a favor e contra ocorrem com frequência. Enquanto uns acreditam que legalizar diminuiria o tráfico, outros acham ser isso inaceitável devido aos transtornos que pode proporcionar. Mas afinal, qual seria a solução para essa questão tão controversa?”

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Ainda sobre o verbo "corroborar"

      “É oportuno observar as estruturas que corroboram com a manutenção do justiçamento, tais como as elevadas taxas de violência nos centros urbanos e a impunidade." (Redação de aluno)
            
          Na passagem acima, há um duplo problema com o uso do verbo “corroborar”. O primeiro é semântico: "corroborar" significa “confirmar”, sentido esse que não cabe no contexto. O segundo é gramatical e diz respeito à regência; “corroborar” é transitivo direto, ou seja, não apresenta complemento regido de preposição.

        Outro problema é o emprego inadequado de “estruturas”; o aluno queria se referir “a razões” (ou “fatores”).


        Eis a frase corrigida: “É oportuno observar as razões que concorrem para a manutenção do justiçamento, tais como as elevadas taxas de violência nos centros urbanos e a impunidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A diferença entre "obcecado" e "obsessivo"

“Há pessoas obsessivas por trabalho que acabam comprometendo seu bem-estar em troca do sucesso profissional.” (Redação de aluno)

O adjetivo “obsessivo” deriva-se de “obsessão”, que é o apego exagerado a uma ideia ou sentimento. Designa os que têm compulsão para fazer determinada coisa. Os chamados workaholics se enquadram nessa categoria e terminam obcecados pelos ofícios que desempenham (“obcecar” significa tornar cego, privar do discernimento).
Embora “obsessivo” e “obcecado” se relacionem quanto ao sentido, somente o segundo admite complemento. Diz-se que alguém é obsessivo sem apontar o objeto da obsessão; não se é obsessivo por alguma coisa. Com “obcecado” é diferente: pode-se dizer que Fulano é obcecado por esportes, jogos eletrônicos, filmes de ficção científica etc.
Na refeitura, é aconselhável substituir a locução “em troca de” por outra que traduza melhor a presumível vantagem obtida com o sacrifício do bem-estar (“em prol de”, por exemplo).

Eis a frase corrigida: “Há pessoas obcecadas por trabalho que acabam comprometendo seu bem-estar em prol do sucesso profissional.”