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quarta-feira, 1 de março de 2017

Mantenha juntos os termos relacionados

     Uma das condições para redigir bem é manter juntas as palavras que têm relação entre si. O agrupamento de ideias afins concorre para dar unidade ao texto e torna mais fácil a leitura. Quando o aluno não observa isso o resultado é ruim, como se pode ver neste exemplo:

     “Observa-se hoje uma contrapartida na veracidade dos malefícios que o uso de drogas pode causar, inclusive no âmbito médico.”

    A parte grifada dá a entender que as drogas causam malefícios... “no âmbito médico”. O motivo dessa ambiguidade foi o deslocamento do adjunto adverbial (grifado) para o fim da frase. Esse adjunto, contudo, não está associado a “pode causar” e sim a “observa-se”.
      É o que mostra a refeitura, na qual se corrige também certa obscuridade semântica que aparece no início:

      “Observa-se hoje, inclusive no âmbito médico, uma contestação aos malefícios que o uso de drogas pode causar.”

      Agrupar não é apenas manter juntas as partes associadas. É também delimitar ideias semelhantes por meio de uma pontuação adequada. Vírgula ou ponto concorrem para que se dê ênfase a determinada(s) parte(s) do texto. Uma vírgula no lugar de um ponto estica desnecessariamente o período e deixa de destacar ideias importantes.
     Observe o seguinte parágrafo introdutório extraído de uma redação sobre os problemas do envelhecimento no Brasil:

        “O Brasil tornar-se-á um dos países com a maior quantidade de idosos no mundo. Em 2050, 30% da população brasileira, o equivalente a 64 milhões de pessoas, estará com 60 anos ou mais, mas será que todos conseguirão ter qualidade de vida?”

      O aluno abre o texto com uma afirmação que é justificada no período seguinte. Os números apresentados comprovam que a tendência do Brasil é ter no futuro um grande número de idosos. 
      A isso ele contrapõe uma pergunta que termina se constituindo no seu ponto de vista.  O questionamento sobre se o País terá condições de dar qualidade de vista aos seus idosos será desenvolvido ao longo do texto. A má pontuação, contudo, não reflete a importância do que foi questionado. Faz com que a pergunta apareça como uma simples extensão do período anterior.
       Outro seria o resultado se o aluno tivesse usado um ponto (e não uma vírgula) antes da conjunção “mas”:

         “O Brasil tornar-se-á um dos países com a maior quantidade de idosos no mundo. Em 2050, 30% da população brasileira, o equivalente a 64 milhões de pessoas, estará com 60 anos ou mais. Mas será que todos conseguirão ter qualidade de vida?”
         Escrever é cortar e também juntar, aproximando informações que se associam. O resultado será mais simplicidade e clareza.     

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Quebra da unidade no uso da locução "em vez de"

“Com a certeza da impunidade, em vez de seguirmos as normas como foram propostas, a cultura do famoso jeitinho vem se difundindo e tornou-se louvável.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, ocorre um problema relacionado ao emprego da locução “em vez de”, que indica a troca de uma coisa por outra (Em vez de pinha, comeu maçã).
Para manter a unidade textual, é preciso haver identidade entre os termos correlacionados. Na frase do aluno a unidade se quebra porque “em vez de” correlaciona sujeitos diferentes (“nós”, sujeito de seguirmos; “e a cultura do famoso jeitinho”, sujeito dos verbos “difundir-se” e “tornar-se”).
O leitor espera que na segunda oração o emissor continue falando de “nós”. Ninguém diz, por exemplo, “Em vez de Luís pegar o metrô, Pedro pegou o ônibus”; não há relação entre essas duas ocorrências.

       Eis a frase corrigida: “Com a certeza da impunidade, em vez de seguirmos as normas como foram propostas, vimos difundindo e tornando louvável a cultura do famoso jeitinho.”

domingo, 25 de dezembro de 2016

A regência do verbo "focar"

 “O governo precisa focar nas prioridades da população.” (Redação de aluno)

Na frase acima, o aluno cometeu uma falha de regência. O verbo “focar” é transitivo direto, ou seja, liga-se ao complemento sem o intermédio de preposição. Foca-se “alguma coisa” e não “em alguma coisa”.
Essa confusão se deve, em parte à interferência do substantivo "foco". Como o complemento desse substantivo é preposicionado (mantém-se o foco em alguma coisa), tende-se a estender a preposição ao complemento do verbo.
Portanto, se você escrever que pretende focar “em seus objetivos”, não pode incluir entre eles a aprovação numa prova de português!

Eis a frase corrigida: “O governo precisa focar as prioridades da população.” 

sábado, 10 de dezembro de 2016

Uso inadequado de "aderir" e "cessão"

“Os sábados aderiram sinônimos de desconforto devido ao barulho de certos cultos religiosos. Diante desse quadro, solicitamos a cessão desses atos de maneira rápida e efetiva.” (Redação de aluno)

       Na passagem acima o verbo “aderir” e o substantivo “cessão” estão indevidamente empregados. Problemas semânticos como esses decorrem do desconhecimento do sentido das palavras ou da confusão que às vezes se faz entre parônimos (palavras que se assemelham pelo som).
         
“Aderir” não significa “virar”, “tornar-se”, que cabem no contexto da frase. Da mesma forma, o substantivo correspondente a “cessar” é “cessação”, e não “cessão” (que corresponde ao verbo “ceder”). 

Eis a frase corrigida: “Os sábados tornaram-se sinônimo de desconforto devido ao barulho de certos cultos religiosos. Diante desse quadro, solicitamos a cessação desses atos de maneira rápida e efetiva.”

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Refazendo período

“A respeito dos refugiados, a ONU deve pensar numa maneira melhor de absorver a enorme demanda e que mantê-los em seus países e negar abrigo, é praticamente negar suas vidas.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, há quebra de paralelismo. O aluno coordena caoticamente os dois objetos diretos do verbo “pensar”. O primeiro, por meio de um substantivo: “numa melhor maneira”; o segundo, por meio de uma oração (à qual, a propósito, falta a preposição “em”): “e (em) que mantê-los em seus países e negar abrigo é praticamente negar suas vidas”. Além disso, separa por vírgula os sujeitos oracionais da segunda oração objetiva direta.
A melhor maneira de resolver o problema é manter o primeiro objeto direto e substituir “em que” pelo conectivo “pois”, transformando em explicação o que é um forçado e artificial complemento verbal. E por que não ser direto e apresentar logo “a ONU” como sujeito?   

Eis a frase corrigida: “A ONU deve pensar numa maneira melhor de absorver a enorme demanda dos refugiados, pois mantê-los em seus países e negar abrigo é praticamente negar suas vidas.”                                    

sábado, 29 de outubro de 2016

Evite o anacoluto (e prefira a voz ativa)

“Alguns países vizinhos, como: Venezuela. Argentina, Colômbia e Chile, é permitido o uso de drogas.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, o aluno quer dizer que em determinados países se permite o uso de drogas, mas omitiu a preposição “em”. Com isso, deixou a locução “alguns países vizinhos” solta no período; a essa quebra na estruturação sintática, dá-se o nome de anacoluto.
Há duas possibilidades de correção: desfazer o anacoluto, inserindo “em” no início da frase, ou transformar em sujeito “alguns países vizinhos” e passar a oração para a voz ativa. Essa última alternativa é a melhor.

Eis a frase corrigida: “Alguns países vizinhos, como Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile, permitem o uso de drogas.”

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Sobre o sentido de "acalorados"

“A discussão acerca do casamento entre homossexuais, no Brasil, produz debates acalorados, porém controversos.” Redação de aluno

Na passagem acima há incoerência. O aluno estabelece uma falsa oposição entre os debates serem “acalorados” e “controversos”, quando uma coisa supõe a outra.
Usado metaforicamente, o adjetivo “acalorado” significa “apaixonado”, “animado”. Quando se aplica a um debate, que envolve discussão sobre pontos de vista contrários, esse adjetivo obviamente realça o que há nele de polêmico, controverso.

Eis a frase corrigida: “A discussão acerca do casamento entre homossexuais, no Brasil, produz debates acalorados.”