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domingo, 25 de setembro de 2016

Confusão no emprego de "ambíguo"

    “O adolescente é um ser ambíguo. Numa hora está feliz, noutra está depressivo e solitário.” (Redação de aluno)

     O adjetivo “ambíguo” refere-se a alguém ou algo que admite mais de uma interpretação. Aplica-se por exemplo ao texto literário, que geralmente tem um sentido denotativo (no dicionário) e outro conotativo (no contexto). Ou ao comportamento contraditório de algumas pessoas. Isso é diferente do que ocorre com o adolescente, que tende a manifestar instabilidade, ou seja, oscilação de humor.

     Eis a frase corrigida: “O adolescente é um ser instável. Numa hora está feliz, noutra está depressivo e solitário.”

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O par correlativo "desde... até"

“A legislação para os processos de adoção no Brasil é lenta. Podendo durar anos até a sua conclusão e a aprovação de todo o processo de adoção.” (Redação de aluno)

Na passagem acima, ocorre falha na chamada coesão sequencial. Um dos efeitos desse processo coesivo é assegurar a correta articulação entre os termos introduzidos por conectivos.  Ela é particularmente importante quando os conectivos constituem pares que se correlacionam (não só... como também, tão tanto... quanto, desde... até etc.).
No fragmento do aluno houve falha na articulação do par “desde... até”, do qual se cortou o primeiro membro (desde). O resultado foi uma acumulação redundante de termos a partir da preposição “até”; mistura-se a ideia de “conclusão” com a de “aprovação de todo o processo” (o que, obviamente, o conclui).
Na refeitura, aproveitamos para corrigir outros problemas, como o uso impróprio do termo “legislação”, o emprego inadequado da preposição “para” e a flexão no gerúndio do verbo “poder”, que fragmenta o período.

Eis a frase corrigida: “A legislação sobre os processos de adoção no Brasil é ineficaz. Devido a isso, eles podem durar anos desde a abertura até a conclusão.”
Outra forma de corrigir é substituir “legislação” por “tramitação”, que se aplica melhor ao contexto: “A tramitação dos processos de adoção no Brasil é lenta. Pode durar anos desde a abertura até a conclusão.”

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Ambiguidade ou sadismo?

“Na cidade francesa de Nice, um homem matou cerca de 80 pessoas atropeladas, deixando a região em estado de pânico.” (Redação de aluno)

Na passagem acima ocorre ambiguidade – ou sadismo. Iniciemos com a segunda possibilidade: é ou não é próprio de um sádico matar 80 pessoas que já foram vítimas de atropelamento?
Evidentemente não foi isso que o aluno quis dizer, o que nos leva à segunda possibilidade. Seu enunciado é ambíguo devido à má ordenação das palavras. O ordenamento errôneo levou-o a apresentar “atropeladas” como um adjunto adnominal e produzir a interpretação descabida (na refeitura, deve-se reduzir “em estado de pânico” a, simplesmente, “em pânico”).

Há duas formas de corrigir a frase: 
1 - “Na cidade francesa de Nice, um homem matou por atropelamento cerca de 80 pessoas, deixando a região em pânico.”
2 - “Na cidade francesa de Nice, um homem atropelou e matou cerca de 80 pessoas, deixando a região em pânico.” (Redação de aluno)


sábado, 27 de agosto de 2016

Confusão no uso de "a priori" e "a posteriori"

“A priori, quando surgiu no século I d. C., essas associações que utilizam o terror e a violência como forma de manifestação eram poucas, mal articuladas e só realizavam ações que atingissem os alvos. A posteriori, com a dispersão pelo mundo desse tipo de manifestação e principalmente com o surgimento e o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas e de comunicação, esses grupos ganharam maior alcance, melhor organização e mais apoio tanto financeiro quanto no contingente individual.” (Redação de aluno)

Entre os problemas do parágrafo acima, está o uso inadequado das expressões “a priori” e “a posteriori”. Elas não devem ser usadas para indicar os dois momentos de uma sequência temporal. “A priori” não se confunde com “de início”. Designa algo que é percebido de modo intuitivo, independentemente da experiência, ou que é dado como um pressuposto. Por exemplo: “Para Rousseau, o ser humano é a priori bom.” “A posteriori”, por vez, traduz um saber que é fundado na experiência ou na observação.
 Há também problemas de pontuação, pois a oração que se segue a “associações” é explicativa e não restritiva (o termo já foi definido pelo pronome demonstrativo “essas”); e de paralelismo, pois os consequentes do par “tanto... quanto” não estão morfossintaticamente harmonizados.

Eis a frase corrigida: “De início, quando surgiu no século I d. C., essas associações, que utilizam o terror e a violência como forma de manifestação, eram poucas, mal articuladas, e só realizavam ações que atingissem os alvos. Depois, com a dispersão pelo mundo desse tipo de manifestação e principalmente com o surgimento e o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas e de comunicação, esses grupos ganharam maior alcance, melhor organização e mais apoio tanto financeiro quanto pessoal.” 

sábado, 20 de agosto de 2016

Mantenha a unidade do período

“Caso a justiça brasileira precise investigar conversas de possíveis terroristas planejando algum atentado, esse crime pode ser bem sucedido devido a privacidade exagerada garantida aos usuários do “Whatsapp”.  

Muitas falhas de coesão resultam da quebra na estruturação do período. É o que ocorre na frase acima, em que o sujeito da oração condicional (a justiça brasileira) não é retomado na oração seguinte. Em vez de retomá-lo, ou de apresentar alguma informação que se relacione com ele, o aluno passa a falar de um novo sujeito (esse crime).

Uma forma de resolver o problema é manter “justiça brasileira” como sujeito das duas orações, fazendo as adaptações necessárias. Aproveite-se para corrigir duas outras falhas: a endorreia representada pelo gerúndio “planejando” com o valor de oração adjetiva e a ausência da indicação de crase antes de “privacidade”. 
  
Eis a frase corrigida: “Caso a justiça brasileira precise investigar conversas de possíveis terroristas que planejem algum atentado, poderá ser malsucedida devido à privacidade exagerada garantida aos usuários do “Whatsapp”.   

sábado, 23 de julho de 2016

Uso inadequado do verbo "estimar"

“Segundo pesquisa, estima-se que cerca de 40% da população global vive hoje sob a situação de estresse hídrico.” (Redação de aluno)
        
Na passagem acima, a presença do verbo “estimar” é inadequada. Ela sugere que a pesquisa foi sobre uma estimativa, e não sobre a situação de estresse hídrico em que determinado percentual de pessoas vive.
         A referência ao percentual indicado pela pesquisa determina a supressão do verbo “estimar”, pois o que era estimativa constitui, com ele, uma quantificação relativamente exata. No primeiro caso deve-se usar o verbo “viver” no subjuntivo, pois se faz referência a uma probabilidade -- o que não acontece no segundo. 
         Há também imprecisão no uso do conectivo “sob”. Vive-se “numa” situação, e não “sob” uma situação.

É possível corrigir a frase de duas formas:
1 - “Segundo pesquisa, cerca de 40% da população global vive hoje na situação de estresse hídrico.”
2 - “Estima-se que cerca de 40% da população global viva hoje na situação de estresse hídrico.” 



terça-feira, 12 de julho de 2016

"Correr atrás do prejuízo"

“Para correr atrás do prejuízo, é necessária a valorização dos profissionais e das pessoas que precisam do serviço.” (Redação de aluno)

 “Correr atrás do prejuízo” é uma dessas expressões que, vez por outra, ganham a preferência popular. Está no mesmo nível de “deixar a zona de conforto”, “dar a volta por cima”, “focar seus objetivos” e outras que infestam sobretudo textos de orientação profissional e autoajuda.
O intrigante em “correr atrás do prejuízo” é o seu sentido paradoxal. A expressão designa o oposto do que se pretende, pois “correr atrás” significa “ir no encalço”, “perseguir”. Quem sofre algum tipo de prejuízo, pelo contrário, procura “compensá-lo” fugindo dele.

Eis frase corrigida: “Para compensar o prejuízo, é necessária a valorização dos profissionais e das pessoas que precisam do serviço.” (Redação de aluno)