Total de visualizações de página

domingo, 29 de dezembro de 2013

Hipercorreção com advérbio


      “Naquele momento, foi obrigado a voltar para casa e, sincronicamente, elaborar outra mentira que desmentisse a anterior.” (Redação de aluno)

 
        O emprego do advérbio grifado na passagem acima não é aconselhável. Embora“sincrônico” signifique, segundo o Houaiss, “que ocorre, existe ou se apresenta precisamente ao mesmo tempo; simultâneo”, o uso de “sincronicamente” em vez de“ao mesmo tempo” constitui um caso de hipercorreção.

        Além do mais, o ato de “elaborar outra mentira” não parece simultâneo ao de “voltar para casa”; a ideia é que ele constitua uma ação posterior. Diante disso, o melhor é retirar o advérbio e deixar apenas a conjunção.
 
        Deve-se também colocar vírgula antes do pronome relativo, que introduz oração adjetiva explicativa; como o aluno se refere apenas a uma mentira, não há ideia de restrição.

         Eis a frase corrigida: “Naquele momento, foi obrigado a voltar para casa e elaborar outra mentira, que desmentisse a anterior.”

domingo, 22 de dezembro de 2013

Mau uso de "sinestesia" e outros problemas

             “A leitura nos proporciona uma sinestesia incrível, envolvemo-nos com as histórias narradas, saindo da realidade e adentrando no tão imprevisível e fascinante mundo da fantasia.” (Redação de aluno)

            Na passagem acima há problemas linguísticos em mais de uma área. Na área semântica, ocorre o uso inadequado de “sinestesia” e o emprego de um adjetivo que, de tão banalizado, nada acrescenta ao substantivo (o adjetivo “incrível”). Sinestesia significa “cruzamento de sensações” e não se confunde com a ideia, expressa pelo aluno, de “se envolver com as histórias”. A esse envolvimento dá-se o nome de empatia.

           Na área gramatical, há dois deslizes: o uso de vírgula em vez de ponto após “incrível”, o que deixa de delimitar o tópico frasal; e o emprego do verbo “adentrar” como transitivo indireto, quando na verdade ele é transitivo direto. Eis a frase corrigida:

            “A leitura nos proporciona grande empatia. Envolvemo-nos com as histórias narradas, saindo da realidade e adentrando o tão imprevisível e fascinante mundo da fantasia.”

domingo, 8 de dezembro de 2013

Não quebre a correlação

       “Dessa forma será possível saber se esse grupo é contra ou defende o mesmo ponto de vista.” (Redação de aluno)

       Certas expressões se articulam com outras e geram determinadas expectativas em quem as ouve. É o caso de “ser contra”, cujo inverso esperado é “ser a favor”.

       O aluno não observou isso na passagem acima, quebrando a simetria estrutural. Há duas formas de restabelecê-la:

       1) “Dessa forma será possível saber se esse grupo é contra ou a favor do mesmo ponto de vista.”

       2) “Dessa forma será possível saber se esse grupo ataca ou defende o mesmo ponto de vista.”

          O que não se deve é misturar as construções.

domingo, 24 de novembro de 2013

Falha coesiva devido a longa intercalação

             “Segundo pesquisas, a produção de alimentos básicos, como arroz, feijão e mandioca, muito presentes na mesa das famílias, não têm sua produção aumentada desde muito tempo.” (Redação de aluno)
           Na passagem acima ocorre falha de coesão. A longa distância entre o sujeito e o verbo fez o aluno confundir o tópico sentencial (núcleo do sujeito). Ele concordou o verbo “ter” com “alimentos” (núcleo do complemento nominal) e não com “produção”. O ideal é desfazer a intercalação e transformar o período em dois.    
          Eis a frase corrigida: “Segundo pesquisas, a produção de alimentos básicos não aumenta há muito tempo. Entre esses alimentos estão arroz, feijão e mandioca, muito presentes na mesa das famílias.”

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"sobre" nem sempre é "em cima de"

       “É preciso refletir em cima das razões que levam a nossa educação a ser tão ruim.” (Redação de aluno)           

         A preposição “sobre” indica posição superior. Equivale a “em cima de” em frases do tipo “Deixou o livro sobre a mesa (em cima da mesa)”.

       Ocorre que essa preposição também significa “a respeito de”. Nesse caso, introduz um adjunto adverbial de assunto (“Falou sobre a reforma política”) ou o objeto indireto de verbos como “pensar”, “refletir” etc. Em situações como essas não tem nenhum sentido substituí-la por “em cima de”, como fez o aluno.

       Por sinal, há hoje uma tendência a banalizar “em cima de”, que chega a ser indevidamente usada no lugar de “em”: “A turma deu uma vaia em cima do diretor (no diretor)”.  

      Eis a frase corrigida: “É preciso refletir sobre as razões que levam a nossa educação a ser tão ruim.”

Tautologia com vocábulos gramaticais

        “A traição só ocorre exclusivamente em virtude da nossa vontade, e não dos aspectos da natureza humana.” (Redação de aluno)
 
        A tautologia é o excesso de palavras para indicar uma mesma ideia. Pode ocorrer tanto no léxico, quanto nos vocábulos gramaticais. Exemplos do primeiro tipo são expressões como “consenso geral”, “fatos reais”, “iminente possibilidade”, em que os adjetivos reiteram desnecessariamente o sentido do substantivo. O desconhecimento da etimologia por parte de quem os usa faz com que acrescentem o óbvio.

       Exemplo de tautologia gramatical ocorre na passagem acima; o aluno usa sem necessidade o vocábulo “exclusivamente”, que tem o mesmo sentido do advérbio “só”.
 
        Eis a frase corrigida: “A traição só ocorre em virtude da nossa vontade, e não dos aspectos da natureza humana.” 

domingo, 17 de novembro de 2013

"herdar" ou "legar"?

           “Algo que me foi herdado e que preservarei na minha vida a qualquer custo são valores como a honestidade e a humildade.” (Redação de aluno)
 
         Na passagem acima, há problema com o uso da locução “me foi herdado”. A construção dá a entender que herdaram do aluno valores como honestidade e humildade (“algo que foi herdado de mim...”). No entanto ele é o beneficiário e não o transmissor desses valores, que lhe foram legados pelos ascendentes.
  
       Caso se mantenha “herdar”, o herdeiro deve aparecer como sujeito ou como agente da passiva: “Algo que herdei...” ou “Algo que foi herdado por mim...”
         Eis a frase corrigida: “Algo que me foi legado e que preservarei na minha vida a qualquer custo são valores como a honestidade e a humildade.”