Poucas vezes senti um calor tão intenso como o
que experimentei em Roma na última semana da nossa viagem. Considerando-se o
número de igrejas da cidade, cabia perfeitamente à situação a imagem de Nelson
Rodrigues; era mesmo um calor “de rachar catedrais”. Isso não impediu que
visitássemos alguns templos, pois esse era o propósito maior dos mentores da
excursão – ao qual, mesmo sem muita inclinação religiosa, aderi em nome da harmonia
familiar.
Valeu a pena, dado o esplendor dos templos
romanos. Enquanto os visitava, eu não podia deixar de pensar o quanto esse
esplendor confirma a influência política e econômica que a Igreja adquiriu após
o cristianismo receber apoio imperial com a conversão de Constantino. Tal
conversão envolveu sobretudo interesses políticos em um contexto de crise e
busca por estabilidade no Império. A fim de abastecer seus cofres, a Igreja
passou a vender indulgências aos ricos, que as adquiria para ganhar a Salvação.
O poder e o dinheiro constituíram um poderoso
atrativo para grandes artistas, que encontraram na Igreja um vasto campo para
exercer sua imaginação criadora. Pintores, escultores, arquitetos e músicos
revestiram de Beleza e simbolismo os ideais cristãos, convertendo conceitos
como a graça e a redenção em formas sensíveis. O esplendor das catedrais, a
grandiosidade das esculturas, a riqueza cromática dos afrescos e a elevação da
música sacra transformaram o apelo religioso numa experiência estética capaz de
suscitar recolhimento e transcendência.
Não se conhece o verdadeiro semblante histórico
de Cristo, nem o de Maria, a não ser pelos traços concebidos por sucessivas
gerações de artistas. Tampouco há retratos autênticos dos apóstolos ou de
numerosos santos venerados pela tradição. As imagens que atravessaram os
séculos são, antes de tudo, construções artísticas e culturais. Nelas, seus
autores projetaram um ideal de Beleza que variava conforme os valores estéticos
de cada época, ajustando-os ao anseio de espiritualidade que buscavam despertar
nos fiéis. Mais do que reproduzir indivíduos históricos, essas obras procuravam
tornar visível o invisível: a compaixão no rosto de Cristo, a pureza em Maria,
a serenidade nos santos, a majestade no divino – e também, claro, a fealdade no
Mal.
Ao ilustrar cenas e personagens da religião, a arte
ajudou a criar a maneira como gerações inteiras passaram a imaginá-los e
senti-los. Assim, a força do cristianismo decorreu não apenas de sua doutrina ou
organização institucional (boa parte herdada da tradição greco-latina), mas também
da extraordinária capacidade de seus artistas de converter ideias em imagens
memoráveis.
Graças ao engenho de um Michelangelo, um
Bernini ou um Bach, a pintura, a escultura e a música produziram representações
dotadas de extraordinária força emocional, promovendo o enlevo e o transporte
que a imaginação frequentemente associa à esfera mística. Tais
manifestações revestem a Palavra de fundas e sutis emoções, que nos predispõem
à aceitação de verdades que não precisam ser provadas e ajudam a preservar o
dogma (que é o cadafalso da Razão). A Arte e seu correlato fundamental (a
Beleza) tornaram-se a linguagem universal da fé, alcançando tanto os eruditos
quanto os analfabetos, que podiam apreender narrativas e ensinamentos
religiosos por meio das imagens e dos sons.
O curioso, pensava eu enquanto esteticamente me
deleitava, é como todo esse fausto se confronta com os ideais de humildade e
desprendimento contidos no ideário cristão. Tivessem dividido suas fortunas com
os pobres, os ricos medievais não teriam como subvencionar as obras que hoje
enchem os nossos olhos e, a despeito do cenário de desigualdade com que
comumente nos deparamos, nos confortam com a ilusão da eternidade.
Como tudo tem um “outro lado”, Roma tem o seu,
que é Trastevere (literalmente, além do Tibre, o rio que divide a cidade em
duas). Como observam os historiadores, na Roma Antiga o Rio Tibre era não apenas
um curso d'água, mas uma fronteira social e psicológica. O lado esquerdo
concentrava o poder imperial e a monumentalidade; e o direito, os imigrantes,
marinheiros e braçais que vinham construir as grandes edificações que ainda
hoje maravilham o mundo.
Numa passada rápida por lá, deu para verificar
o contraste. Ruas estreitas e de calçamento irregular, becos escuros nos quais
parecia que o táxi não ia caber. De repente emerge desses corredores suspeitos uma
pequena praça, e o silêncio é substituído pelo rumor de copos e risadas. O que
ali se vê, ao lado de casais sobretudo jovens, mais parece o complemento de um
filme de Fellini ou De Sica. Nada que lembre o compungido fervor das orações.
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